Numa liturgia única, a Igreja
celebra aqueles que marcados com o sinal da fé, partiram para o abraço
definitivo de Deus. Nisso, a Igreja dá-nos um grande exemplo de união e
fraternidade, reunindo numa só festividade santos e pecadores, pois todos são
filhos do mesmo Pai. Não há privilegiados nem desprezados. A Igreja tenta
chamar nossa atenção para nossa condição de seres imortais, posto que Deus nos
perfilhou pela graça santificante do batismo. Apesar de tudo, temos medo da
morte. Sentimos dificuldade em aceitá-la como um ato natural
da vida e a grande realidade do ser humano. “A morte é apenas a porta de
entrada da Vida”, dissera Santo Agostinho. Sem ela não se pode desfrutar da paz
em plenitude.
Deus Pai vela por nós e nos recebe com carinho, no final de
nossa caminhada. É preciso ter consciência de que Ele nos criou por amor, de
modo algum porque necessitava de nós. Tornou-nos seus filhos, resgatados pelo
sangue de Cristo, sinal ainda maior de sua inefável ternura e misericórdia.
Tudo é fruto do amor. Este não morre, gera vida e diferentes formas de viver.
Deste modo, nossos entes queridos não desaparecem, encontram em Deus outra maneira
de ser. O Dia de Finados é um convite a lembrarmo-nos daqueles que passaram por nossas
vidas.
Pelo
profeta Isaías, Deus nos diz: “Eu te chamei e te peguei pela mão” (Is 42,6).
Percebemos Sua presença a nosso lado pela força que nos dá, pela esperança que
nos alimenta e pela fé que ilumina nossos momentos de dor. Por essa ótica e pela dimensão cristã é possível compreender o mistério
da morte. Pascal afirmava que “coração “tem razões que a própria razão
desconhece.” O que não dizer da fé, iluminada por Deus. Ela identifica tipos de
presença que a corporeidade não alcança, descobre união e proximidade que o
espaço sequer imagina. Ela é a marca do divino, atemporal, onipresente e
espiritual. Ultrapassa limites e amarras, quebra laços que nos prendem e
liberta das prisões. Conduz-nos ao amor. E este não morre. “É mais forte que a
própria morte. Quem não ama, permanece na morte” (1Jo 3, 14). O Santo de Hipona
repetia: “Ninguém ama sem ter fé nem acredita sem amar.”
A Solenidade de Finados é, portanto, a celebração da fé
que nos une e consola. Nesse dia devemos reverenciar aqueles que amamos e
continuamos a amar. O vazio temporal é preenchido pela força da esperança
cristã. A liturgia da Igreja é um convite a nos colocar numa atitude de escuta
silenciosa daqueles que marcaram nossa história. O Dia de Finados é uma data de
encontro familiar, em que nos reunimos para ouvir dentro da alma aqueles que
nos ajudaram a compreender e a viver melhor o dom da existência. É também,
metaforicamente, nossa celebração. Grandes sofrimentos, decepções, tristezas,
angústias, derrotas e perdas têm sabor de morte. Mas Deus nunca nos deixa
sozinhos, relegados ao desespero. Podemos verificar na história do povo
bíblico. Deste modo, celebra-se igualmente nossa ressurreição ou vitória,
fruto de nossa crença. Devemos acreditar que nas mãos de Deus não há perigos,
alimentando em nós a chama da esperança.
O apóstolo Paulo afirma que “não há proporção entre os sofrimentos
do tempo presente com a glória que há de ser revelada a nós” (Rm 8, 18). Deus
reserva para cada um de nós o inimaginável, que supera de longe nossas
dificuldades e dores. Em resumo, na Solenidade de Finados celebra-se,
sobretudo, o amor. Primeiramente, o de Deus por nós; em segundo lugar, o de
nossos entes queridos por nós, enfim o nosso pelo Pai Celestial e nossos
familiares. Não nos inquietemos. O amor é invisível e imprevisível, cria formas
e modos diferentes de se manifestar. Pela fé, haveremos de descobrir meios de permanecer presentes e unidos. Lembremo-nos das palavras de Cristo a
Marta: “Eu sou a Ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha
morrido, viverá” (Jo, 11, 25).

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