Monsenhor
João Medeiros Filho
Após a Encíclica “Mediator Dei” (1947),
surgem movimentos de valorização da Palavra de Deus. A Igreja Católica celebra
o Domingo da Bíblia, que antecede o dia 30 de setembro, festa litúrgica de São
Jerônimo, tradutor dos textos originais para o Latim, versão conhecida como
Vulgata. A Sagrada Escritura é revelação divina, mística e de significativo valor
histórico-literário. No tratado “Doctrina Christiana”, Santo Agostinho põe em
pé de igualdade a excelência literária dos clássicos e a qualidade dos Livros Bíblicos.
Nestes, a mensagem espiritual é enunciada com beleza, fonte de experiência religiosa e escola de oratória e
escrita. Quem desejar conhecer a elegância dos estilos e gêneros literários
deverá beber na tradição retórica, descritiva e poética dos Textos Sagrados.
A verdade bíblica é
transcendental, indissociável de um magnífico suporte linguístico. Fé e
linguagem esmerada se completam. Os Escritos Bíblicos estão impregnados de
inspiração divina, daí a sua profundidade e encanto que atravessam séculos.
Desde os tempos mais remotos, há uma nítida consciência da perenidade da
Palavra Divina. “As folhas e flores murcham, mas a Palavra do Senhor permanece
para sempre” (Is 40, 8). Atualmente, autores leigos têm contribuído para
aprofundar o conhecimento e amor à Bíblia, demonstrando em seus estudos a
sublime qualidade dos relatos neo-vetero-testamentários. Dentre eles,
destaca-se Erich Auerbach em “Mímesis”, estabelecendo dois paradigmas da
literatura mundial: a Odisseia e a Sagrada Escritura. Para ele, os Textos Bíblicos
contêm profunda intencionalidade artística e acentuada concepção harmônica do
humano e divino. Hoje, há excelentes trabalhos, incentivando a leitura e proporcionando uma melhor
compreensão do Livro Sagrado.
Em “De profundis”, Oscar Wilde
relata: “No Natal, consegui um exemplar do Novo Testamento e todas as manhãs, após
limpar a cela da prisão e lavar os pratos, lia versículos dos Evangelhos. Era
uma deliciosa maneira de começar o dia, enchendo-me de luz e paz.” Ao longo dos
anos, tentaram ofuscar a beleza e o encanto dos Evangelhos, proclamando-os de
forma inadequada ou apressada. Debruçar-se sobre eles é como entrar num jardim
de rosas perfumadas, depois de sair de um ambiente estreito, escuro e fétido.
Ali, o leitor poderá encontrar importantes realidades da vida: angústia, tristeza,
alegria, amor, súplica, solidariedade, perdão, ternura, êxtase etc. Sua leitura
desperta um
sentimento no qual se percebem poesia e transcendência da Palavra de Deus.
Os Textos Bíblicos inspiraram inúmeras
e renomadas obras artísticas, em suas variadas formas, criadas ao longo dos
séculos: as catedrais (Chartres), as pinturas de Giotto, a Divina Comédia (Dante
Alighieri), as esculturas e pinturas de Michelangelo, músicas sacras e
clássicas, bem como a literatura mundial. Dentre os autores brasileiros
influenciados pela Sagrada Escritura, destacam-se Jorge de Lima, Augusto
Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Adélia Prado, Rubem Alves etc. Basta folhear
a Bíblia com mais interesse para verificar o que escreveu William Blake: “Ela é
o grande código da arte ocidental.” O poeta Claudel a considera “um completo
compêndio, pois nele – e às vezes só nele – apreende-se a difícil e
interminável arte de
narrar e escrever.” O pintor Chagall a denominou “atlas iconográfico”, pois tantas imagens ali contidas se
fixam em nossa formação intelectual e espiritual.
A Bíblia é tesouro e patrimônio cultural da
humanidade. Obra de inspiração divina, transmitida por místicos, poetas e
cronistas, cantada e recitada durante milênios, antes de ser escrita. Ela é
tecida de vocábulos que envolvem o mistério e registram os rastros do sopro transcendente,
presença silenciosa, atingindo o nosso âmago. Assim, compreende-se o
arrebatamento do profeta Jeremias: “Mal encontrei as Tuas palavras, e já as devorava. Elas se tornaram para mim prazer e
alegria” (Jr 15,16).