Padre João Medeiros Filho
O tema deste artigo foi pautado por Monsenhor Lucas, um
pastor sequioso de mensagens éticas e teológicas para levar os fiéis a refletir.
O termo golpe é amplo e não apenas ideológico-político. Envolve todo o comportamento
humano. Não se pretende aludir a momentos da história brasileira. A intenção é
mostrar a dimensão e os contornos dessa realidade que atinge o ser humano e a sociedade.
Alguns exegetas afirmam que a desobediência de Adão e Eva (Gn 3, 1ss) – ícone
da ruptura do homem com os planos de Deus – é o primeiro golpe da História. Constitui-se
em rejeição do projeto divino para as criaturas. Os hagiógrafos já conheciam
posturas golpistas e fraudulentas: “Parece gostoso o pão ganho com fraude, mas a boca depois ficará cheia de areia” (Pv 20,
17).
A palavra golpe – tão empregada por políticos e juristas
– tem origem no vocábulo latino “colpus”, por sua vez derivado do grego “kolaphos”
(originando colapso). O termo denota primitivamente bofetada, soco, tabefe,
tapa e corte. Segundo o gramático Adriano da Gama Kury, arrimado nos filólogos
Antenor Nascentes e Augusto Magne, a evolução semântica do étimo parte do latim “colpus”
para o português arcaico colpe, ancorando na atual grafia golpe. Este
mantém a ideia de movimento brusco com uso de força ou violência. Apesar de suas diferentes modalidades, configura-se
sempre como um ato agressivo, inesperado e desrespeitoso. Apresenta-se de forma
física ou intelectual.
A prática desses atos remonta a milênios. O profeta Isaías
insurge-se contra injustiças, mentiras, narrativas e dolos que motivam atitudes
golpistas. Assim se expressa diante delas: “O direito voltou-se para trás; a
justiça permanece longe; a verdade desmaiou em praça pública, a retidão não
pode entrar. A verdade, então, foi esquecida e quem se desvia do mal é
despejado” (Is 59, 14). É rotina abordar o golpe do ponto de vista meramente ideológico-político,
“concebido como ruptura de um estado constituído legitimamente, com emprego de
violência, perpetrado por militares e civis.” Trata-se de ato consumado por
vezes sem espeque legal,
subvertendo instituições legitimamente constituídas. Em geral, ao se falar em
golpe, pensa-se logo nesse tipo de ruptura. É provavelmente o que mais chama a
atenção. Entretanto, não é a única forma.
Para o teólogo Tomás de Aquino “ele está presente em qualquer rompimento e acinte
à verdade, ação agressiva, nefasta e destruidora.”
Partindo-se
dessa concepção ética e filosófica, ludibriar, mentir, praticar embustes,
trapacear e tantos outros atos que incluem essa postura individual e social, são
atentados à verdade e às pessoas. Portanto, atos imorais e deletérios enquadram-se
como golpe, sendo este individual ou coletivo. Trair alguém, descuidar
conscientemente das tarefas familiares e responsabilidades sociais, prevaricar
no serviço público, corromper e ser corrompido, anunciar promessas e não as
cumprir (tão comuns e habituais entre os políticos em campanhas eleitorais), julgar
injusta e levianamente, tudo se constitui em atos golpistas. É afronta e
aviltamento à verdade, justiça e dignidade humana. Não aplicar corretamente os
impostos nas administrações públicas, deixar as pessoas sem o que lhe é de
direito – saúde, segurança, educação, estabilidade econômica e financeira – tudo
isso é, do ponto de vista filosófico e ético, um golpe. Quantas bofetadas a
população recebe de seus dirigentes! E muitos desses atos continuados e
crônicos podem ter consequências tão perversas quanto a cisão de sistemas governamentais.
Em ambos os casos atentam contra a liberdade
e a vida. Pregar e anunciar certas mudanças cientificamente improváveis é golpear. Tudo isto fere os fundamentos do ser
humano e da sociedade. Muitos acusam os outros de golpistas, quando, não raro,
seus pensamentos e ações são mais
graves.
O senador e jurista Afonso Arinos de Melo Franco afirmava
peremptoriamente: “Cuidado com aqueles que taxam seus adversários de golpistas!
Suas intenções por vezes estão plenas de ruptura contra os outros e o Estado.”
O salmista já bradava: “Os males atingirão o violento em sua queda. O Senhor
garantirá o direito do indigente e dos pobres. Sim, os justos darão graças a
teu nome e os retos habitarão na tua presença” (Sl 140/139, 14). Há que se
refletir: “O golpista [ímpio] gera dolo e traição. Quem semeia a
justiça terá recompensa condigna” (Pv 11, 18).







