Padre João Medeiros Filho
Tema bem humano e sagrado, dimensão complexa da
vida. Corporeidade, dor, sofrimento perpassam pelas páginas da Bíblia. Aflição
e choro integram as bem-aventuranças. “Bem-aventurados os que choram, pois eles
serão consolados” (Mt 5, 4). De que modo enfrentar com esperança e resignação as
mais variadas perdas e derrotas da vida, sobretudo o dissabor da morte? A fé,
chama divina que crepita no íntimo de quem crê, poderá iluminar, sendo capaz de
trazer uma resposta consoladora e reconfortante. Importante também recorrer a
Maria Santíssima, Mãe Compadecida e Consoladora dos aflitos. Muitas vezes, a
cultura moderna lida com o sofrimento de maneira perigosa. As promessas de
felicidade são baseadas no ter, poder e prazer, pondo em segundo plano os
dramas humanos mais sérios. Gastam-se muitas
energias para escapar das situações de sofrimento, julgando possível dissimulá-lo.
É preciso mostrar o seu sentido. A Igreja tem cuidado dessa realidade?
Atualmente, vive-se num mundo mórbido e ferido. Além da finitude, que é
natural a todos, as pessoas sofrem com um tipo de sociedade desigual e injusta,
privilegiando certas minorias e exaltando a riqueza e o poder acima da vida.
Enquanto isso, muitos padecem de inúmeras violações. Se, de um lado, a medicina
avançada alivia e cura tantos males; de
outro, o lucro e a busca desenfreada pelo dinheiro fazem pesar sobre a
humanidade muitas morbidades. Os interesses lucrativos distanciam cada vez mais
os carentes de benefícios e das descobertas científicas. O avanço da medicina,
que deveria ser para todos, torna-se impiedosamente seletivo. Diante disso, o
cristianismo precisa ensinar o valor da compaixão que ampara e do engajamento contra as cruzes impostas pelas forças
de morte do mundo hodierno.
A sociedade passa ao largo diante das queixas e dores
dos cidadãos. Profissionais da saúde não se preocupam mais em ouvir. Em grego o
termo “clínica” significa escutar, debruçar-se sobre alguém e pôr as mãos. O
professor doutor Celso Matias costumava repetir a seus alunos. Isso significa
solidariedade e compaixão. Maria Santíssima, ao pé da cruz, é um símbolo de sofrimento
e compassividade. O mundo deixou de ser exorável. Além da insensibilidade, empurra
as pessoas para o circuito deletério do binômio produção-consumo. Vive-se uma
lógica perversa. Enquanto isso, o corpo deve suportar as consequências nefastas
da indiferença. Depressão, medo e desprezo são frequentemente realidades causadas
pela sociedade atual. E quais as respostas? Ansiolíticos, terapias paliativas
etc. Há dores físicas e mentais que, se não tratadas a
tempo, transformam-se em mais padecimento.
Enquanto alguns sonham em explorar outros planetas,
seria mais urgente, sábio e justo reconquistar a corporeidade: espaço do
sagrado mistério da vida e “templo de Deus” (1Cor 3, 14). Hoje, a
vulnerabilidade corpórea pesa sobretudo para os mais carentes e menos
favorecidos. O rito da escuta atenta e a palavra partilhada são importantes
para a saúde do corpo e da alma. Cristo
sempre escutava e era cheio de misericórdia pelos doentes e pobres, sofridos e pecadores, colocando-se ao lado dos esquecidos
e rejeitados de seu tempo.
Os cristãos devem seguir a sensibilidade de Jesus com
os mais feridos da condição humana. “Tive compaixão deles, pois eram como
ovelhas sem pastor” (Mc 9, 36-38). “O Verbo se fez carne para que não fosse desprezado
nenhum corpo, por mais ferido que esteja”, lembrava São João Paulo II na Carta
Apostólica “Salvifici Doloris” (Do sofrimento
salvífico). A presença misericordiosa diante do infortúnio do próximo
torna Deus presente O amor fraterno salva e a
caridade redime. O salmista nos consola e fortalece: “Muitas são as aflições dos justos, mas de todas
elas o Senhor os libertará” (Sl 34/33, 20).
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