Padre João Medeiros Filho
Desde o século II, além de
continuar celebrando o primeiro dia da semana, como Dia do Senhor, os cristãos
procuraram solenizar o Domingo da Ressurreição. Nasce assim liturgicamente a
Semana Santa. No século IV, Santo Agostinho recomendava
aos fiéis de Hipona a vivência do Tríduo Pascal. Durante a Semana Santa, a
Igreja celebra o mistério da reconciliação, realizado por Jesus, começando pela
entrada messiânica em Jerusalém, passando pela Ceia e Cruz, culminando com sua
Ressurreição. A Semana Santa convida-nos também a descobrir nos sofrimentos da
humanidade a atualização da Paixão de Cristo. Segundo Pascal, “Jesus continua
em agonia, misticamente, até o fim dos tempos.” Assumindo nossa condição
humana, Ele revestiu-se de um corpo sujeito à
dor e ao sofrimento, mas seu espírito imortal destruiu a morte.
A Semana Santa é a celebração do Amor
de Deus. E ninguém pode duvidar desse Amor pelo ser humano. Ele transcende a
compreensão dos homens. Misericórdia do Pai, que se plenifica na entrega de seu
Filho para nossa salvação, a fim de que ninguém se perca. Morte e Ressurreição
de Cristo são a prova maior de sua doação por nós. Traduzem os sentimentos do
Pai. Jesus aceitou padecer e aniquilar-se na Cruz para demonstrar nossa pobreza.
Mas, Ele ressurgiu dos mortos para revelar a grandeza divina que, por
gratuidade do Onipotente, existe em nós. Para os cristãos, a Cruz tornou-se símbolo de
mudança de vida e redenção.
Deus ama todos indistintamente. “Deus amou tanto o mundo, que nos deu seu Filho
único” (Jo 3, 16). Às vezes, somos incapazes de compreender
incomensurável gesto. Quem dentre nós, está disposto a sacrificar seu filho
único (ou filha) para salvar ou trazer a paz aos outros? É essa oferta gratuita
de Cristo, que vivemos e celebramos na Semana Santa. Dádiva suprema de Deus, que
atinge o ser humano, manifestando sua capacidade de amar. Cristo valoriza-nos,
independente de nosso amor, não porque sejamos bons e justos, mas porque Ele
assim o quis para nos dar “a vida em plenitude” (Jo 10,10). Nossa salvação
depende de acreditar em sua bondade para conosco e aceitá-lo. “Quem n’Ele crê,
não é condenado” (Jo 3, 18). Não é vontade de Deus que as pessoas se percam,
tampouco sente satisfação em condenar alguém. A alegria de Cristo é salvar cada
um dos irmãos, é desarmar todos com o seu perdão. “Assim haverá maior alegria nos céus por um só
pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove
justos que não precisam de arrependimento” (Lc 15, 7).
A
liturgia da Semana Santa é um convite a descobrir Cristo, nosso Salvador, que é
Luz. “Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue, não caminha na escuridão, mas terá
a luz da vida” (Jo 8, 12). Durante o Tríduo Pascal, Ele deixa entrever um vislumbre do brilho
divino e abre uma fresta de esperança para cada um de nós. Foi erguido no alto
da Cruz, para que todos sentissem o clarão de Deus, que tem o poder de salvar,
pois é benignidade e misericórdia. Eis o sentido da celebração da Semana Santa.
Cristo vence o
duelo da morte. Diante dela somos impotentes. Mas, para Ele não é obstáculo,
pois para isso veio ao mundo. Nasceu a fim de trazer a Vida àqueles que n’Ele
creem. Ele aceitou a realidade humana para nos dar a Vida sem ocaso. A morte é
ausência de Deus. Mas, Cristo tem o poder de fazer reviver, porque é o Senhor
da Vida. Ele deseja nos ressuscitar com a sua Palavra. “A quem iremos, Senhor, só Tu tens palavras de vida?” (Jo 6, 68).
Que não haja dúvida, medo e desespero. Jesus veio nos libertar de tudo aquilo
que nos deixa adormecidos e mortos. Sua Palavra transformará em dia as trevas,
em alegria nosso pranto, em certeza nossa dúvida, em paz nossa angústia! É o
que vivemos na Semana Santa, mistério insondável do Amor de Deus! Feliz e Santa
Páscoa para todos. Jesus vive e reina. Como
Madalena e os apóstolos sejamos arautos da Ressurreição do Filho de Deus. “Ele
não está aqui, ressuscitou como havia dito” (Mt 28, 6).
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