Padre João Medeiros Filho
Reflexões sobre o
sofrimento de Cristo I
É preciso
completar em nossa carne aquilo que faltou à cruz de Cristo (2Cor 4, 10), eis o pensamento de São Paulo a respeito
de nossos sofrimentos. Assim sendo, a Semana Santa não é apenas o memorial da
Paixão do Senhor. É também a celebração de nossas lágrimas, aflições, angústias
e dificuldades. Vivemos ainda na Semana Santa a dor e a cruz de nossos irmãos.
Cristo afirmara: o discípulo não é maior
do que o Mestre (Mt 10, 24). Deste modo, estamos sujeitos a percorrer o
mesmo caminho de Jesus. É nossa paixão e morte. Somos o Corpo Místico de
Cristo, como afirmou Pio XII, por isso atualizamos em nossas vidas o que
acontecera com Jesus.
A Semana Santa é um momento privilegiado para nos
conscientizar de que Cristo não concebeu a sua existência terrena como busca do
poder, corrida ao sucesso ou vontade de domínio sobre os outros. Ao contrário,
Ele renunciou os privilégios da sua igualdade com Deus, assumiu a condição de
servo tornando-se semelhante aos homens, obedeceu ao projeto do Pai até à morte
na cruz. Desta forma deixou aos seus discípulos e à Igreja um ensinamento
precioso: se o grão de trigo que cai na
terra não morre, fica só. Mas se morre, produz muito fruto (Jo
12, 24).
É preciso na Semana Santa refletir sobre o gesto de
Cristo em sua caminhada para o Calvário. Ele carrega sobre os ombros a
transgressão humana com os efeitos de nossas desobediências, da maneira mais
desprezível, as quais manifestam a maldade e a gravidade do delito que nos
desfigura (Rm 5,6-10; 1Pd 2,24-25; Is 53). Assim presta a Deus, no seu coração
de Filho, a honra e a glória da obediência e do amor perfeitos, reparando o mal
que fizemos, trocando o orgulho pela humildade, a violência pelo amor.
Na Semana Santa somos convidados a sepultar o egoísmo,
a falta de solidariedade, a indiferença, a injustiça, a inveja, o orgulho, a
violência, numa palavra, nossos pecados. É mister haver uma Sexta-Feira Santa
para cada um de nós, onde crucificaremos tudo o que é negativo em nós, para
haver Domingo de Páscoa. Mas é preciso não esquecer que a paixão e a
ressurreição não são atos isolados. Eles foram precedidos da Quinta-feira
Santa, que é a celebração da unidade e da fraternidade. Assim só haverá Páscoa,
se houver comunhão e partilha, como fizera o Mestre. Existirá Ressurreição,
somente se existir amor.
A Semana Santa é a resposta suprema de Cristo
(e dos cristãos) ao desafio cotidiano e permanente do mal. É a manifestação do
amor infinito de Jesus para conosco. Celebramos também, em 2026, o sofrimento
de Cristo na vida de tantos irmãos exterminados por causa de sua luta pela paz,
nos corpos de muitos outros agredidos em sua dignidade e excluídos do banquete
da vida.
Por outro lado, a vivência desta Semana Santa
deve ser nossa gratidão e nosso amor Àquele que se sacrificou por nós, ao Servo
de Deus que, segundo o profeta Isaías, não
opôs resistência, não se afastou para trás, mas apresentou os ombros aos
flageladores e não desviou o rosto dos que o ultrajavam e lhe cuspiam (Is 50, 4-7). Cristo não se acovardou
diante do sofrimento e da dor, pois sabia que o Pai não O abandonaria e sua
Cruz foi o instrumento escolhido por Deus para resgatar a humanidade. Do mesmo
modo, nossa cruz, nossa dor ou sofrimento são a porta de acesso à glória e à
alegria de nossa libertação!
Entretanto, ao celebrar a Semana Santa, é
preciso ter diante dos olhos e na mente que não só de tragédias, fracassos,
derrotas e tristezas é feita a vida humana. Nós cristãos somos portadores da
esperança. Acreditamos que haverá vitória sobre a morte e a maldade. E o autor
dessa vitória é Cristo, a quem devemos entregar nossa vida!
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