Padre
João Medeiros Filho
Psicólogos e místicos distinguem solitude e solidão. Esta é
o estado de espírito, quando alguém se sente vazio, sozinho e desconectado,
mesmo em meio à multidão. Trata-se de experiência desconfortável e até dolorosa.
Enquanto, a solitude é consentida e calmante, ao se ficar só. Ela oferece uma
escolha voluntária para autoconhecimento, reflexão e recarga de energias, que promovem
crescimento e bem-estar. Tal condição de vida é escolhida especialmente por
pessoas contemplativas, no caso dos monges, eremitas e anacoretas. A diferença fundamental
está na qualidade da conexão consigo mesmo; frágil na solidão, profunda e
nutritiva na solitude. Viver ou decidir estar sozinho nem sempre é sinal
de abandono. Às vezes, é plenitude. Poderá ser um espaço ou momento, no qual o
pensamento floresce e o silêncio se transforma em sabedoria. Aprender a
apreciar a própria companhia é uma forma de liberdade. Quem acredita ou confia
em si, nunca está realmente só. “Quando você se ama, a
solitude se transforma em liberdade”, afirmava Santa Edith Stein.
Para
Adélia Prado, “solitude não significa ausência, mas espaço vital de
encontro consigo mesmo e o sagrado.” Nela, a alma se manifesta no cotidiano da
vulnerabilidade humana e nas contradições da vida, elevando a rotina ao Transcendente.
Resulta daí uma comunhão que acolhe tristeza e alegria, carne e espírito. Busca-se
a sintonia do íntimo com o universo, aproximação do isolamento e do silêncio
para escutar a vida. A solitude é uma abertura para a verdadeira
existência, um tesouro, no qual se pode descobrir a profundidade do ser, a
complexidade da vida e a presença de Deus. Tudo isso se manifesta na sensibilidade e no olhar de quem medita. Conhecida
é a súplica do salmista: “Olha para mim e tem piedade, Senhor, pois sou
pobre e estou sozinho” (Sl 25/24, 16).
Rainer
Maria Rilke, um dos grandes poetas solitudinários, dissera: “As obras de arte nascem
do isolamento.” O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard observou que possivelmente
o início da solidão humana se encontre no fato de se comparar. Experimentei
isso em minha própria carne. Muito jovem e inexperiente fui estudar na Bélgica.
Brocoió incurável de Jucurutu, nascido naquela pequena cidade do sertão
potiguar, deparei-me com habitantes de tez e cabelos claros, de cultura diversa,
amantes da erudição, considerados intelectualizados. Comparei-me com eles. Eu era
diferente, introspectivo, de sotaque arrastado do nordeste brasileiro, mais voltado
para a oralidade. Não passava de um patinho feio que os colegas discretamente
desdenhavam. Raramente, era convidado para ir à casa de algum deles, sendo
observado como um ser estranho. A ponto de um professor, ao saber de minha
procedência (Jucurutu), perguntar: “De que tribo é você?” Senti-me injuriado e respondi: “Vim de uma tribo
menos feroz do que a sua.”
Foi então, quando me senti solitário. A solidão de ser
diferente e inferior. E sofria. Sequer me atrevia a compartilhar meu
desapontamento, junto a colegas oriundos de outros países. Parecia-me inútil.
Eles não me compreenderiam. E mesmo que entendessem, nada poderiam fazer.
Assim, tive que suportar por algum tempo a minha solidão. As caminhadas pelo
deserto da vida me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E descobri
buscar aquilo que poderia amenizar um solitário: Sagrada Escritura, silêncio, música,
literatura, a beleza da natureza, prece e mística. Deste modo, foi se formando aquele que hoje que sou. A
solidão se transformou em solitude.
Confesso
que comecei a crescer, quando abandonei as comparações. Elas nos tornam
inferiores, pessimistas, menores. Comparar-se pode ser destrutivo, leva à
inveja, ao complexo de inferioridade e à “síndrome do vira-latas.” É preciso
aprender a aceitar a dor, dela é possível nascer a beleza. Mas, não é
aconselhável aceitar o desconforto da comparação, pois não leva à verdade.
Dizia o poeta e teólogo Rubem Alves: “a comparação não é cristã.” Jesus a
rejeitou, como se pode verificar na parábola narrada pelo evangelista Mateus
(cf. Mt 20, 1-16). Nela, o patrão decidiu pagar o mesmo salário (sem distinção)
aos operários da vinha. Se por acaso, sentirmo-nos na solidão, rezemos confiantemente: “Não me abandones jamais, ó Deus de
minha salvação” (Sl 27/26,9).
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