terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Solitude e solidão

 

Padre João Medeiros Filho

Psicólogos e místicos distinguem solitude e solidão. Esta é o estado de espírito, quando alguém se sente vazio, sozinho e desconectado, mesmo em meio à multidão. Trata-se de experiência desconfortável e até dolorosa. Enquanto, a solitude é consentida e calmante, ao se ficar só. Ela oferece uma escolha voluntária para autoconhecimento, reflexão e recarga de energias, que promovem crescimento e bem-estar. Tal condição de vida é escolhida especialmente por pessoas contemplativas, no caso dos monges, eremitas e anacoretas. A diferença fundamental está na qualidade da conexão consigo mesmo; frágil na solidão, profunda e nutritiva na solitude. Viver ou decidir estar sozinho nem sempre é sinal de abandono. Às vezes, é plenitude. Poderá ser um espaço ou momento, no qual o pensamento floresce e o silêncio se transforma em sabedoria. Aprender a apreciar a própria companhia é uma forma de liberdade. Quem acredita ou confia em si, nunca está realmente só. “Quando você se ama, a solitude se transforma em liberdade”, afirmava Santa Edith Stein.

Para Adélia Prado, “solitude não significa ausência, mas espaço vital de encontro consigo mesmo e o sagrado.” Nela, a alma se manifesta no cotidiano da vulnerabilidade humana e nas contradições da vida, elevando a rotina ao Transcendente. Resulta daí uma comunhão que acolhe tristeza e alegria, carne e espírito. Busca-se a sintonia do íntimo com o universo, aproximação do isolamento e do silêncio para escutar a vida.  A solitude é uma abertura para a verdadeira existência, um tesouro, no qual se pode descobrir a profundidade do ser, a complexidade da vida e a presença de Deus. Tudo isso se manifesta na sensibilidade e no olhar de quem medita. Conhecida é a súplica do salmista: “Olha para mim e tem piedade, Senhor, pois sou pobre e estou sozinho” (Sl 25/24, 16).

Rainer Maria Rilke, um dos grandes poetas solitudinários, dissera: “As obras de arte nascem do isolamento.” O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard observou que possivelmente o início da solidão humana se encontre no fato de se comparar. Experimentei isso em minha própria carne. Muito jovem e inexperiente fui estudar na Bélgica. Brocoió incurável de Jucurutu, nascido naquela pequena cidade do sertão potiguar, deparei-me com habitantes de tez e cabelos claros, de cultura diversa, amantes da erudição, considerados intelectualizados. Comparei-me com eles. Eu era diferente, introspectivo, de sotaque arrastado do nordeste brasileiro, mais voltado para a oralidade. Não passava de um patinho feio que os colegas discretamente desdenhavam. Raramente, era convidado para ir à casa de algum deles, sendo observado como um ser estranho. A ponto de um professor, ao saber de minha procedência (Jucurutu), perguntar: “De que tribo é você?” Senti-me injuriado e respondi: “Vim de uma tribo menos feroz do que a sua.”

Foi então, quando me senti solitário. A solidão de ser diferente e inferior. E sofria. Sequer me atrevia a compartilhar meu desapontamento, junto a colegas oriundos de outros países. Parecia-me inútil. Eles não me compreenderiam. E mesmo que entendessem, nada poderiam fazer. Assim, tive que suportar por algum tempo a minha solidão. As caminhadas pelo deserto da vida me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E descobri buscar aquilo que poderia amenizar um solitário: Sagrada Escritura, silêncio, música, literatura, a beleza da natureza, prece e mística. Deste modo, foi se formando aquele que hoje que sou. A solidão se transformou em solitude.

Confesso que comecei a crescer, quando abandonei as comparações. Elas nos tornam inferiores, pessimistas, menores. Comparar-se pode ser destrutivo, leva à inveja, ao complexo de inferioridade e à “síndrome do vira-latas.” É preciso aprender a aceitar a dor, dela é possível nascer a beleza. Mas, não é aconselhável aceitar o desconforto da comparação, pois não leva à verdade. Dizia o poeta e teólogo Rubem Alves: “a comparação não é cristã.” Jesus a rejeitou, como se pode verificar na parábola narrada pelo evangelista Mateus (cf. Mt 20, 1-16). Nela, o patrão decidiu pagar o mesmo salário (sem distinção) aos operários da vinha. Se por acaso, sentirmo-nos na solidão, rezemos confiantemente: “Não me abandones jamais, ó Deus de minha salvação” (Sl 27/26,9).

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