PADRE JOÃO MEDEIROS FILHOS.
Na sua época,
Cristo estava cercado desses gestos. Judeus e samaritanos se odiavam (cf. Jo 4,
9). Os homens tratavam as mulheres como inferiores. Os líderes religiosos
judaicos desprezavam o povo (cf. Jo 7, 49). Sintomática é a frase de Tiago e João diante da
recusa dos habitantes da Samaria em receber o Mestre: “Senhor,
quereis que mandemos descer do céu fogo para que os destrua”? Porém, Jesus os
repreendeu. Nos
últimos tempos, tem-se a incômoda sensação de que as manifestações públicas de
intolerância e intransigência aumentam. Muitas, lamentavelmente, alimentadas
por lideranças políticas, religiosas e midiáticas. É verdade que, no Brasil, ao
longo dos anos, não se viveu apenas de coerências, convergências, similaridades
etc. A vida é complexa. Tem-se
de lidar consigo mesmo e com outros, em meio às divergências, dúvidas,
diferenças e contradições. Por isso, um desafio para o ser humano é coexistir e
conviver. Não é fácil escolher o que representa um bem para si e os semelhantes.
Nisso emerge a ética e
dela a responsabilidade cada um por suas atitudes e as consequências para si e
a sociedade. Por isso, a tolerância – atitude de aceitação e respeito àquele
que diverge – exige uma postura ética. Para a convivência harmônica, não é
obrigatório ter os mesmos estilos de vida, crenças, ideologias e opiniões.
Divergência e discordância são componentes da diversidade humana, compondo o
encantador mosaico da vida. O apóstolo Paulo já aborda tal pluralidade na
metáfora do corpo na Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 12, 1ss). A tolerância não
consiste em aguentar ou suportar. Trata-se do reconhecimento implícito e explícito
do direito que cada um tem de ser aquilo que é, ou continuar a ser. Hoje,
fala-se tanto em democracia. Mas, quem mais usa o termo, em geral, age impositivamente.
A regra de ouro do cristianismo, contida no Sermão da Montanha, reflete o
postulado de ser diferente e o dever do respeito: “Tudo quanto quereis que os
outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles.” (Mt 7, 12). Então, qualquer
postura deve ser
aceita? Não. Por isso há regras de convivência que passam pelos deveres e
direitos.
É preciso agir
coletivamente para se garantir o direito de ser e existir. Corruptos precisam
responder pelo uso abusivo e ilegal de recursos que devem garantir a vida.
Racistas e sexistas devem ser punidos ao tratarem com inferioridade um ser
humano. Quem abusa da liberdade de expressão para ofender e violentar com
palavras e atos aquele que não se aceita como igual (ou de quem se discorda)
deve ser punido. A intolerância é fundamentalmente a negação do direito de o
diferente existir. É visão unilateral da vida, concepção exclusivista e
impositiva da existência. Apresenta-se como tradução da egolatria. Decreta-se
certo e verdadeiro o que lhe agrada ou convém. Daí, a tentação de uma única
concepção de mundo. Quem é intransigente deseja impor o pensamento com o qual
se identifica. Há quem chegue até a usar da força física e violência. Não
faltam os arautos da liberdade e democracia, mas a seu modo e segundo seus interesses.
Concretiza-se em preconceitos, discriminação e ódio.
Tais atitudes manifestam-se em ações coletivas
particularizadas e concretizadas em segregações e exclusões. Por vezes, também
se revertem em ações coletivas organizadas: atentados, invasões, assassinatos
etc. Tais práticas podem igualmente ser assumidas por governantes e reverter em
políticas ou transformar em leis, que interessam a alguns (grupos e partidos) e
não à coletividade. Disto resulta a discussão entre oportunismos, legalidade e
legitimidade. Nem tudo aquilo que é posto como lei pode ser considerado justa e
legitimamente humano. A intolerância não tem idade, gênero, cor, classe social,
nacionalidade, nível de instrução, religião. Não é sinônimo de “direita” ou
“esquerda”. É própria de quem não quer lidar com as dessemelhanças dos humanos.
Reconhecer a própria intolerância (deixar de
se ver como centro do universo) é o grande passo da superação de atitudes
ditatoriais. É preciso fazer política de forma respeitosa, na qual todos tenham
o mesmo lugar e oportunidade. Convém lembrar o pensamento do apóstolo Paulo: “E se tiverdes outro modo de pensar, cabe a Deus
esclarecer, só Ele é Juiz.” (Fl 3, 15).
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