PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO.
Sempre tive admiração pela gastronomia, envolvendo arte e
criatividade culinária, laboratório de transformações e combinações de gêneros
alimentícios, expressão cultural e antropológica. Visa a alimentar com
qualidade o ser humano, imagem e semelhança de Deus. Daí, sua sacralidade. Nossa
corporeidade é tabernáculo divino. “Não sabeis que o vosso corpo é santuário
daquele que habita em vós, o Espírito Santo que recebestes de Deus?” (1Cor 6,
19-20). Além da teologia, literatura e música, a gastronomia sempre me cativou.
Um dos meus sonhos era instalar em Caicó uma graduação nessa área de
conhecimento para proteger também nossas tradições culturais seridoenses. Em 2005, elaborei um projeto pedagógico de um
curso de gastronomia, enviado pela diocese caicoense ao MEC. Entretanto, na
vacância do bispado, o administrador diocesano não acompanhou o processo nas
instâncias ministeriais, tendo sido arquivado.
A
UniCatólica do Rio Grande do Norte, sediada em Mossoró, brindou o estado com um
“Centro de Nutrição e Gastronomia”. O alimento é uma dádiva divina. Tem-se o
hábito religioso de rezar, antes e depois de tomar a comida, reconhecendo o seu
valor espiritual. O primeiro milagre de Cristo aconteceu num banquete de
casamento. A Eucaristia, o mais tocante e místico dos sacramentos, nasceu durante
uma ceia. O relevante alimento cristão originou-se da transubstanciação do pão.
Cristo se definiu: “Eu sou o Pão da Vida” (Jo 6, 35). Pão e vinho foram
transformados em elementos teológicos.
O escritor Rubem Alves aconselhava: “Antes de iniciar o
itinerário da aprendizagem, alunos e docentes deveriam passar por uma cozinha.”
O verdadeiro mestre deve agir como um bom cozinheiro. Demonstra seu talento na
medida em que suscita fome. Os banquetes não têm início com a comida servida.
Eles começam com a fome. O artífice da cozinha deve antes de tudo dominar a tática
de produzi-la. Por ela mede-se o sabor. É isso que o verso de Adélia Prado
testemunha como um mantra: “Não necessito de faca nem queijo; quero fome.” A
primeira tarefa dos profissionais de gastronomia reside na capacidade de despertar
o desejo. São significativas as palavras de Jesus: “Desejei ardentemente comer
esta Páscoa convosco” (Lc 22,15). A cozinha nos torna sonhadores, criativos e
transformadores. Para Richard Wrangham, da Universidade de Harvard, “o
aparecimento da cozinha permitiu a nossos antepassados multiplicar as dimensões
do cérebro.” Junto com a mesa, ela não reduz o mundo,
amplia-o surpreendentemente.
Em seu ensaio “O cru e o cozido”, o antropólogo
Lévi-Strauss debruça-se sobre alguns elementos que descrevem a origem da
cozinha. De suas descobertas fica claro como ela é indispensável ao ser humano
em sua dimensão filosófico-cultural. O cru representa o estado natural, quando
o homem se alimenta apenas daquilo que encontra acessível a seu redor. O cozido
é o salto, representando uma das transições antropológicas vertiginosas, isto
é, a passagem da natureza para a cultura. A mesa documenta o dado biológico e
simbólico. Há um conhecimento tipicamente humano, que passa pela cozinha e só
através dela se decifra. A culinária é um tema particularmente denso, onde se
avultam e colhem alguns dos códigos mais intrínsecos das culturas. É lugar
comum afirmar que cozinhar é uma arte. Consiste num poderoso sistema icônico,
num observatório pleno de práticas essenciais e sentidos. Os antropólogos
insistem que, ao se entender o desenvolvimento de uma refeição, queda-se na posse de valores, hierarquias e estruturas do grupo humano nela envolvido.
Não parece despropositado falar de uma autêntica teologia
alimentar, identificada nos textos judaico-cristãos. A revelação bíblica é uma
forma de alimento e o contato com a Sagrada Escritura se constitui em relevante
iniciação aos sabores da vida. As escolhas nutricionais sedimentam a identidade
cultural e religiosa. A torrente de passagens bíblicas referentes à mesa e aos
alimentos não são meras notas marginais, destinadas a ser etiquetadas sob a
categoria de curiosidades. Bíblia e comida são princípios da vida. Nutrir-se é
bíblico, enquanto condição indispensável para existir. Mas, saber viver depende
da dimensão transcendente apontada pela Bíblia, palavra inspirada e revelada.
Assim, ela convida-nos: “Vós que estais com sede, vinde às águas... Por que
gastais o dinheiro com aquilo que não é pão?... Comei o que é bom e vossa alma se
deliciará” (Is 55, 1-2).
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