terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Alimentação, cultura e sacralidade



            PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO.


Sempre tive admiração pela gastronomia, envolvendo arte e criatividade culinária, laboratório de transformações e combinações de gêneros alimentícios, expressão cultural e antropológica. Visa a alimentar com qualidade o ser humano, imagem e semelhança de Deus. Daí, sua sacralidade. Nossa corporeidade é tabernáculo divino. “Não sabeis que o vosso corpo é santuário daquele que habita em vós, o Espírito Santo que recebestes de Deus?” (1Cor 6, 19-20). Além da teologia, literatura e música, a gastronomia sempre me cativou. Um dos meus sonhos era instalar em Caicó uma graduação nessa área de conhecimento para proteger também nossas tradições culturais seridoenses. Em 2005, elaborei um projeto pedagógico de um curso de gastronomia, enviado pela diocese caicoense ao MEC. Entretanto, na vacância do bispado, o administrador diocesano não acompanhou o processo nas instâncias ministeriais, tendo sido arquivado.

A UniCatólica do Rio Grande do Norte, sediada em Mossoró, brindou o estado com um “Centro de Nutrição e Gastronomia”. O alimento é uma dádiva divina. Tem-se o hábito religioso de rezar, antes e depois de tomar a comida, reconhecendo o seu valor espiritual. O primeiro milagre de Cristo aconteceu num banquete de casamento. A Eucaristia, o mais tocante e místico dos sacramentos, nasceu durante uma ceia. O relevante alimento cristão originou-se da transubstanciação do pão. Cristo se definiu: “Eu sou o Pão da Vida” (Jo 6, 35). Pão e vinho foram transformados em elementos teológicos.

O escritor Rubem Alves aconselhava: “Antes de iniciar o itinerário da aprendizagem, alunos e docentes deveriam passar por uma cozinha.” O verdadeiro mestre deve agir como um bom cozinheiro. Demonstra seu talento na medida em que suscita fome. Os banquetes não têm início com a comida servida. Eles começam com a fome. O artífice da cozinha deve antes de tudo dominar a tática de produzi-la. Por ela mede-se o sabor. É isso que o verso de Adélia Prado testemunha como um mantra: “Não necessito de faca nem queijo; quero fome.” A primeira tarefa dos profissionais de gastronomia reside na capacidade de despertar o desejo. São significativas as palavras de Jesus: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco” (Lc 22,15). A cozinha nos torna sonhadores, criativos e transformadores. Para Richard Wrangham, da Universidade de Harvard, “o aparecimento da cozinha permitiu a nossos antepassados multiplicar as dimensões do cérebro.” Junto com a mesa, ela não reduz o mundo, amplia-o surpreendentemente.

Em seu ensaio “O cru e o cozido”, o antropólogo Lévi-Strauss debruça-se sobre alguns elementos que descrevem a origem da cozinha. De suas descobertas fica claro como ela é indispensável ao ser humano em sua dimensão filosófico-cultural. O cru representa o estado natural, quando o homem se alimenta apenas daquilo que encontra acessível a seu redor. O cozido é o salto, representando uma das transições antropológicas vertiginosas, isto é, a passagem da natureza para a cultura. A mesa documenta o dado biológico e simbólico. Há um conhecimento tipicamente humano, que passa pela cozinha e só através dela se decifra. A culinária é um tema particularmente denso, onde se avultam e colhem alguns dos códigos mais intrínsecos das culturas. É lugar comum afirmar que cozinhar é uma arte. Consiste num poderoso sistema icônico, num observatório pleno de práticas essenciais e sentidos. Os antropólogos insistem que, ao se entender o desenvolvimento de uma refeição, queda-se na posse de valores, hierarquias e estruturas do grupo humano nela envolvido.

Não parece despropositado falar de uma autêntica teologia alimentar, identificada nos textos judaico-cristãos. A revelação bíblica é uma forma de alimento e o contato com a Sagrada Escritura se constitui em relevante iniciação aos sabores da vida. As escolhas nutricionais sedimentam a identidade cultural e religiosa. A torrente de passagens bíblicas referentes à mesa e aos alimentos não são meras notas marginais, destinadas a ser etiquetadas sob a categoria de curiosidades. Bíblia e comida são princípios da vida. Nutrir-se é bíblico, enquanto condição indispensável para existir. Mas, saber viver depende da dimensão transcendente apontada pela Bíblia, palavra inspirada e revelada. Assim, ela convida-nos: “Vós que estais com sede, vinde às águas... Por que gastais o dinheiro com aquilo que não é pão?... Comei o que é bom e vossa alma se deliciará” (Is 55, 1-2).

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