terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A água e sua sacralidade

 


             PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO.


Nos meus tempos de jovem padre, ao adentrar numa sacristia, havia em destaque um quadro sobre uma cômoda, afixado na parede, contendo os nomes do papa, do bispo local e a indicação da “oratio imperata”. Esta era uma oração obrigatória, determinada pela autoridade diocesana, a ser rezada na missa, em alguns períodos. De dezembro a março, costumava-se recitar a prece “ad petendam pluviam” (para pedir chuvas). Nas comunidades romanas dos primeiros séculos do cristianismo, nos períodos de maior estiagem, costumava-se realizar o canto processual das ladainhas (conhecido por rogações), suplicando a clemência divina para enviar chuvas. As tradições vão sendo esquecidas e abandonadas, mesmo no catolicismo.

O Rio Grande do Norte conheceu a luta de Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros por água potável e abundante. Seu engajamento nessa causa foi marcante, a ponto de seu nome ter sido aposto a uma adutora potiguar. Citava amiúde a Declaração Universal dos Direitos Hídricos, assinada por vários países em 1992, no Rio de Janeiro. Consta do seu artigo 4º: “O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos.” O inolvidável pároco de São Paulo do Potengi compreendeu os gestos de Cristo, ao demonstrar sua predileção pelo precioso líquido.

A água é um elemento sagrado, essencial à vida, exaltado na Sagrada Escritura. No princípio, “o espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 2). No dilúvio, “elas purificaram a terra” (Gn 7,10-24). Moisés realizou a travessia dos hebreus pelo Mar Vermelho, libertando-os do opróbio dos egípcios (Ex 14, 21ss; 15,1-21). No deserto, fez brotar da rocha uma fonte para saciar a sede do povo peregrino em busca de Canaã (Nm 20, 10). Em seu batismo, Cristo foi banhado no Rio Jordão (Mt 3, 13). Na cena do juízo final, ouvir-se-ão palavras que fazem parte das Obras de Misericórdia: “Tive sede e me destes de beber” (Mt 25, 35). Fomos aspergidos ou molhados nas fontes batismais e inseridos na comunidade cristã. O corpo humano contém mais ou menos sessenta por cento do fundamental líquido, indispensável ao funcionamento dos órgãos. No catolicismo, sua importância é tanta que em todas as bênçãos o sacerdote asperge as pessoas ou objetos.

Nos evangelhos, Jesus apresenta-se marcadamente aquático. Foi batizado no Rio Jordão (Mt 3,13-17). Posteriormente, tornou o precioso líquido matéria do sacramento do batismo, por considerá-lo um princípio vital. Dessedentou-se no Poço de Jacó, onde tocou o coração da samaritana, trazendo-a de volta à graça divina. Navegou, muitas vezes, pelo Mar da Galileia (Mc 6,45). Fez dele e das barcas sua cátedra (Mc 4,1-2; Lc 5,1-3). Nos momentos de medo dos apóstolos, ordenou às ondas do mar que se acalmassem (Mc 4,39) e, em outra ocasião, caminhou sobre elas (cf. Jo 6, 18). Certa feita, determinou que dois discípulos seguissem um homem carregando um cântaro contendo o importante líquido (Mc 14,13). Durante a Última Ceia, tomando jarro, bacia e toalha, lavou os pés de seus apóstolos (Jo 12,1-17), gesto repetido nas celebrações litúrgicas da Quinta-feira Santa. No Calvário, pendendo do patíbulo da cruz, de seu lado aberto por uma lança “jorraram sangue e água” (Jo 19,34), símbolo da Eucaristia. Prometeu que do interior de quem nele acreditasse, jorrariam torrentes vivas (Jo 7, 37-39). Segundo os evangelistas, Ele escolheu os doze seguidores, transformando-os em “pescadores de homens.” (Lc 5, 11).

Não se pode esquecer: foi diante de um rio, lago ou mar que Cristo começou a sua Igreja, convocando os primeiros discípulos. Certa feita, passando pelo Mar da Galileia, viu Pedro e André lançando ali as suas redes. Diante desta cena, Jesus dissera-lhes: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.” (Mt 4, 19). De igual modo, chamou os irmãos João e Tiago, que lavavam e consertavam as tarrafas (Mc 1,14-20; Mt 4, 18-22). Voltando à nossa atualidade: nosso preclaro confrade Woden Madruga costuma fazer valiosas anotações e interpretações, acompanhando cuidadosamente a precipitação pluviométrica na região nordeste. Neste início de ano, diante da escassez das reservas hídricas, deve-se rezar pedindo um copioso inverno. Lembremo-nos da promessa de Deus a quem Lhe rogasse com perseverança e fé: “Derramarei água na terra sedenta e torrentes sobre o solo ressecado” (Is 44, 3).

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