quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Enviado por Magnovaldo Santos – Palm Coast, Florida - USA


A serpente do Poço de Santana Meu avô paterno, Manuel Julião, um dos primeiros habitantes de Laginhas, Rio Grande do Norte, capital intelectual, cultural, artística, política, industrial e militar do Seridó e suporte econômico de seu principal distrito, Caicó, partiu prematuramente deste mundo no final de 1976 aos 102 anos de idade. 

Quando completou 100 anos foi homenageado com uma apresentação da Banda de Caicó, que se deslocou até Laginhas para celebrar sua flamejante juventude. Laginhas, Rio Grande do Norte, e o Poço de Santana, perto de Caicó Ficando cego aos 90 anos, seu passatempo era contar histórias para os piás da região, cujas idades variavam de 8 a 80 anos. 

O velho Manuel Julião jurava por Santa Rita do Tapirapecó, sua protetora espiritual, que suas histórias não eram balelas, mas verdades verdadeiras e inquestionáveis. Uma de suas histórias era relativa à serpente que habitava o Poço de Santana, perto de Caicó que, segundo a lenda, nunca seca.

 Pois meu fidedigno avô Manuel Julião afirmava solenemente que um cabra arretado de Mossoró, passando perto do local, resolveu dar um mergulho no famoso Poço de Santana para se refrescar. Amarrou seu jumento, ficou em trajes sumários e pendurou seu relógio suíço Lanco de 25 rubis, Incabloc e pulseira de couro de crocodilo (note vosmecê a precisão da narrativa) no galho de um arbusto que estava perto. Relógio de última geração, pois que era automático e somente o balanço do braço era suficiente para dar corda naquela maravilha mecânica. Relógio Lanco Automático de 25 rubis A terrível serpente apareceu ameaçadoramente. 

Nosso amigo, apavorado com a visão daquele monstro, vestiu-se o mais rapidamente possível, montou no jegue e se mandou. Esqueceu-se do relógio. Lembrou-se dele quando já ia longe umas três léguas. Voltou ao local, mas não mais o encontrou. 

Sete anos depois (claro, algum beradeiro desavisado pode afirmar que sete é conta de mentiroso) o nosso viajante estava de novo nas redondezas e se lembrou do Poço de Santana. Com um calor de dar brotoeja em picolé, resolveu voltar ao local para refrescar-se n’água. Assim que se preparava para mergulhar ouviu um “tic-tac” em um pé de jurema. 

Curioso, foi ver do que se tratava. E aí viu seu relógio Lanco automático de 25 rubis, Incabloc e pulseira de couro de crocodilo, enroscado em um dos galhos. 

Aquele arbusto havia crescido e agora já era uma arvorezinha. O vento balançava o galho e o relógio, com isso, tinha sua máquina alimentada. O mais interessante é que, após tantos anos, o relógio estava marcando a hora certa, somente com um minuto e meio de atraso! Os suíços são fantásticos na fabricação de seus relógios! Ninguém em sã consciência pode ter motivos para duvidar da veracidade das histórias de meu avô.

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