terça-feira, 3 de novembro de 2026

Padre Canindé: o grande líder espiritual do Assú


                                                         Pe. Francisco Canindé dos Santos

 Por: Gregório Celso Macêdo

Na noite de ontem, 31 de outubro de 2026, às vésperas da Solenidade de Todos os Santos, no Assú/RN, entregou a alma a Deus o Pe. Francisco Canindé dos Santos. Filho de Joaquim Martins dos Santos e Cecília Monteiro dos Santos, nasceu a 05 de julho de 1937, no sítio Pelo Sinal, sertão do Cabugi, zona rural de Angicos, estado do Rio Grande do Norte.

Sentindo despertar em seu coração a vocação sacerdotal, matriculou-se no Seminário Santa Terezinha, em Mossoró, no ano de 1951. Estudou, em seguida, na capital da Paraíba, em Fortaleza (CE) e Olinda (PE). Foi ordenado em Mossoró, no dia 29 de junho de 1965, pelas respeitáveis mãos de Dom Gentil Diniz Barreto.

Chegou ao Assú no dia 03 de janeiro de 1966, para auxiliar o Padre Militino Leite da Cunha. Em 1968, foi nomeado pároco. À época, a Paróquia de São João Batista abrangia a extensão atualmente correspondente aos municípios do Assú, Carnaubais e Porto do Mangue e, ainda, oficialmente, uma porção da zona rural de Jucurutu.

Padre Canindé foi um pastor zeloso, e além das mais de cinquenta comunidades que compunham a paróquia sob sua responsabilidade, chegou a assistir locais situados nos então municípios de São Rafael, Upanema e Ipanguaçu, inclusive, neste último, o distrito de Pataxó.

Apresentou grande destaque no campo do ensino. Já a partir de 1967, tornou-se, por décadas, a principal figura do Instituto Padre Ibiapina (IPI), onde foi professor, diretor e assistente eclesiástico. Com muita bravura e firmeza, dando continuidade à obra do Padre Hélio Ferreira Alves, fez da referida escola um estabelecimento modelo, equiparável aos congêneres da rede privada, fato que se comprovava pela organização, elevado nível dos professores e desempenho dos seus alunos, que colhiam honrosos frutos nos mais concorridos certames da época.

A escola chegou a ter mais de dois mil alunos, do ensino infantil até o que é hoje equivalente ao ensino médio. Os resultados positivos do Instituto Padre Ibiapina não eram colhidos somente por assuenses, mas contemplavam alunos de outros municípios da região.

Foi diretor do Ginásio Pedro Amorim e professor da instituição de ensino superior atualmente denominada Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), deixando de se tornar professor efetivo desta universidade, para não interferir nas suas atividades pastorais. Ou seja, preferiu a assistência espiritual do seu povo à comodidade financeira pessoal!

Inteligente e visionário, foi um baluarte no sonho, na instalação e no funcionamento da Rádio Princesa do Vale. Neste veículo radiofônico deu grandes provas da sua capacidade de comunicador, dele se valendo como eficaz instrumento de evangelização.

Coerente com a Doutrina Social da Igreja – no sentido mais genuíno da expressão, ou seja, em favor da sociedade, à época da construção da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, foi um ícone em defesa dos mais humildes e em defesa das atividades agropecuárias da região. Por ser apoio, foram diminuídos os problemas da população diretamente atingida pela construção do reservatório. No mesmo caso, também ajudou os proprietários rurais que se uniram para evitar a desapropriação de milhares de hectares por valores irrisórios – o que impactaria negativamente a economia local.

Estando o Seminário de Mossoró sem funcionamento, entre 1978 e 1983, ele criou no Assú o Centro Vocacional – o que frutificou em várias vocações e foi elemento essencial na reabertura do referido seminário diocesano.

Foi figura de expressão no movimento que repercutiu em todo o estado, buscando a elucidação do terrível assassinato de uma criança, chamada Elizete Moura Lemos, na zona de rural de Ipanguaçu, RN, nos idos de 1996.

Decorrido o tempo, com alguns problemas de saúde, foi substituído na missão pároco de São João Batista, sendo, entretanto, nomeado colaborador pastoral, por provisão datada de 05 de julho de 2012.

Há vários anos sofria de muitos padecimentos físicos, contudo cercado do carinho e do reconhecimento dos seus filhos espirituais, sentimentos dos quais era legítimo merecedor.

Homem de têmpera forte, suportou os inevitáveis percalços do caminho (perseguições e incompreensões), mas se manteve firme à luz das suas convicções religiosas, com um desprendimento material a toda prova.

Em certa ocasião, com a igreja matriz lotada, quando esperavam dele um longo pronunciamento, apenas proferiu a seguinte frase: “Nasci pobre, vivi pobre e morrerei pobre!”. De fato, faleceu materialmente pobre, porém rico da gratidão e do amor do rebanho do qual foi pastor e modelo por mais de sessenta anos.

Foi sepultado a 01 de novembro de 2026, na capela (inacabada) de Nossa Senhora das Graças, encravada em imóvel de posse e propriedade da Paróquia de São João Batista do Assú, no mesmo local onde, outrora, funcionou o mencionado Instituto Padre Ibiapina.

Que a sua alma descanse em paz – será o brado eterno do povo do Assú e da região, como expressão imorredoura de apreço e admiração ao seu inesquecível Padre Canindé!

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