Monsenhor João Medeiros Filho
Dom José de Medeiros Delgado sempre se revelou afável, sensato,
acessível e ecumênico. Em 1942, denunciaram-no à Santa Sé por ter convidado
dois evangélicos para lecionar no recém-inaugurado Ginásio Diocesano
Seridoense. Em resposta tranquila afirmou: “Não havia outros mais capacitados.
Convidei-os para
ensinar biologia e inglês, não religião ou doutrina. Ademais, os líderes de
amanhã, formados num educandário católico, deverão saber lidar,
desde cedo, com as diferenças.”
Foi
pioneiro ao propor a reabilitação canônica de Padre Cícero Romão Batista. Em
1944, os bispos da Província Eclesiástica da Paraíba (Natal não era
arquidiocese) deliberaram que os padres não batizassem crianças com o nome de
Cícero. O prelado caicoense discordou. Em nome da colegialidade, procurou Dom
Moisés Coelho, Arcebispo da Paraíba e assegurou-lhe que os sacerdotes de sua
diocese seguiriam a orientação do episcopado, apesar de considerá-la desprovida
de fundamentação teológica, canônica e
pastoral. Para evitar atritos, ele administraria o sacramento a quem
solicitasse o batismo, apondo o prenome proibido. Despediu-se do metropolita
com palavras típicas de seu episcopado:
“Sou o responsável diante de Deus pelo meu rebanho.”
O
rito batismal era em latim, que poucos entendiam. Assim, alguns padres, para não
afrontar as diretrizes provinciais e os paroquianos, batizavam as crianças com
nomes de santos. Quando pároco em Caicó, lidei com pedidos de retificação dos
assentamentos batismais. O preconceito ia longe. O “Patriarca do Juazeiro” era
devoto de Nossa Senhora das Dores, por isso havia sacerdotes que não benziam
imagens da Virgem Dolorosa. Certa feita, Paulo Balá, confrade da ANRL,
mostrou-me um quadro que pertenceu a sua mãe.
No verso estava escrito: “o vigário recusou benzê-lo.”
Enquanto Arcebispo de Fortaleza, Dom Delgado intensificou
os esforços pela reabilitação do “Santo do Cariri”. Trocou ideias com
pensadores cristãos, dentre eles, Parsifal Barroso, Luís Sucupira, Monsenhor
Azarias Sobreira e Tristão de Athayde. Em carta dirigida a este último sobre o
assunto, em 12/4/1970, assim escreveu: “Estou empenhado em dar à passagem do
centenário de ordenação sacerdotal do Padre Cícero (ocorrida em 30.11.1870) um brilho especial. Para tanto publiquei dois
estudos.”
Irmã Annette Dumoulin, em “Padre Cícero, santo dos
pobres, santo da Igreja” analisa os fatos ocorridos no sul do Ceará,
apresentando uma síntese da reabilitação pela Santa Sé. Em 2006, Monsenhor
Assis Pereira, do clero natalense, elaborou o processo de reabilitação, solicitando
primeiramente a anulação da excomunhão “a divinis”. O zelo pastoral do
“Patriarca do Juazeiro” em acolher especialmente os mais simples e sofridos,
ouvindo e abençoando-os, constitui indubitavelmente um sinal da graça divina. Escreveu
a religiosa belga: “Não adotou a teologia do medo. Ensinava com mansidão e
ternura. Não julgava. Ouvia e perdoava, seguindo o Divino Mestre. Não se
revoltou com incompreensões e punições, hoje reconhecidamente
indevidas.” Afirma o apóstolo Tiago: “Feliz quem suporta a provação, receberá
a coroa da vida, prometida por Deus aos que O amam” (Tg 1, 12).
O
RN também foi próximo de Padre Cícero. Além da expressiva devoção dos
potiguares, “Padim Ciço” foi colega no Seminário de Fortaleza de alguns de
nossos presbíteros, inclusive do “Anjo de Natal”, Padre João Maria. Foi
companheiro de ordenação do caicoense Sebastião Constantino de Medeiros,
governador do bispado de Olinda, durante a prisão de Dom Vital. Na grande seca
de 1877-1879, o “Patriarca” vendeu parte de seus bens, destinando uma porção
para socorrer os famintos de nosso estado. Dom Delgado admirava a obediência e
o amor de Padre Cícero à Igreja, denominando-o “Mártir da disciplina”. E dizia:
“Se esse projeto é de origem humana, fracassará.
Ao contrário, se vier de Deus não conseguireis destruí-lo” (At 5, 38).
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