O
período eleitoral no Brasil traz desilusão e descontentamento para os cidadãos
mais conscientes. Revela a degradação de nossa política. A falta de
propostas objetivas e viáveis para a melhoria da sociedade salta aos olhos.
Brigas partidárias inúteis e desconstruções pessoais são abundantes. Ao longo
dos anos, os métodos são os mesmos e as siglas partidárias, meras fantasias.
Assiste-se involuntariamente a um festival de inverdades, sofismas e narrativas.
Isso leva à perda do real sentido da política, que deveria ser instrumento na
edificação de uma sociedade democrática, justa e próspera. Os cristãos
deveriam levar mais a sério essa atividade e fazer com que seja “um modo de
viver a caridade, como expressão da vivência do Evangelho”, segundo o Papa
Francisco. Não cabe ao clero assumir o papel dos leigos. Somos pastores, não
militantes e ativistas de partidos políticos. Temos compromisso com a unidade
da Igreja, não com a divisão. Não se deve colaborar para que partidarismos e
ideologias quebrem os vínculos da união eclesial. Ao se tratar levianamente a
política, ela é reduzida a interesses partidários. Deste modo, tornamo-nos reféns
dos que a utilizam, objetivando favorecer
grupos e forças dominantes. “O governante que pratica a justiça dá estabilidade ao país. Quem gosta de
suborno o levará à ruína” (Pr 29, 4).
Sem
consciência cidadã, os agentes políticos instrumentalizam o país e os entes
federados, em favor de quem menos precisa e lutam para se perpetuarem
no poder. Isso apequena a sociedade, impedindo seu bem-estar e
desenvolvimento. Deste modo, tudo se transforma em disputa
polarizada, alicerçada na cegueira expressa ao idolatrar figuras por mero
populismo e fidelidade a interesses nada republicanos. Isso acentua o
distanciamento das aspirações e necessidades da população. A postura leviana
privilegia e exalta pessoas, desconsiderando propósitos com relevância social.
Ademais, favorece o uso manipulado da máquina pública e
estruturas que deveriam servir ao bem comum. Não esquecer a
advertência bíblica: “Quando os justos se multiplicam, o povo se alegra; quando
o ímpio administra, o povo geme” (Pr 29, 2).
Urge
tratar adequadamente o fracasso da política e o obscurecimento da
consciência coletiva. O ceticismo se fortalece, inclusive diante de
princípios fundamentais da lei moral. Esse descrédito arrasta a sociedade para um
triste caos sociopolítico. É preciso reconstruir um itinerário que
possibilite o aprendizado de lições eficazes na qualificação sociopolítica
da sociedade brasileira. Elas gestarão novas lideranças e uma renovada
consciência cidadã. Deste modo, serão capazes de se colocar
a serviço da nação e dedicar-se-ão a construir um patamar razoável de
convivência e justiça
social. “Examinai tudo e guardai o que for bom” (1Ts 5, 21).
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em mensagem
ao povo brasileiro (18/6/26), enfatiza que a divergência política não deve se
transformar em hostilidade ou violência. A paz, o diálogo e a superação da
desigualdade social são deveres da totalidade dos cidadãos. O bem-estar da pátria
é o objetivo de todos e não de um grupo ideológico ou partidário. Inspirada em
valores cristãos, a Igreja convida a população a superar o desânimo e se unir para
a construção de um Brasil justo e fraterno, sob a proteção divina. A CNBB reitera:
“A abstenção não é a melhor escolha. Cada eleitor deve assumir sua
responsabilidade. O Brasil necessita promover e cultivar a harmonia social.” Os
bispos imploram a intercessão da Padroeira do Brasil para “nos ajudar a
percorrer caminhos de verdade, justiça e paz.” Recomenda a Sagrada Escritura:
“Abre a tua boca pelos que não têm voz, pela causa de todos os
que sofrem” (Pr 31, 8-9).
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