terça-feira, 18 de agosto de 2026

Falar e escrever, um desafio

 


             Padre João Medeiros Filho

O apóstolo Paulo afirmava: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho” (1Cor 9, 16). Para tanto, pregava e escrevia Epístolas. A palavra oral ou escrita move o mundo. É fonte de alegria ou tristeza, paz ou revolta, amor ou ódio, vida ou destruição. Drummond declarou: “Um sapiente amor me ensina a fruir da palavra a essência do ser.” Tenho compromisso com ela, firmado na minha unção sacerdotal e quando assumi o encargo de me sentar na cadeira de Dom Nivaldo Monte, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Enquanto padre, jurei zelar pelo conteúdo da Palavra (o Verbo); já como acadêmico, cabe-me zelar pela sua forma. Pregar ou escrever é expor-se, ao revelar as próprias ideias e valores.

Escrevo num jornal laico. Considerando que essencialmente sou padre, com frequência abordo temas cristãos. Em certos momentos, discorro sobre assuntos diversos, passíveis de discussão. Entendo a Tribuna como espaço de reflexão e não proselitismo ou apologética. Busco fidelidade ao pensamento da Igreja à qual me comprometi servir. Isso não implica em subserviência, obscurantismo, ausência de análises ou direito de sugerir ou divergir. Observados seus dogmas, princípios morais e disciplinares, ela respeita nossa liberdade de pensar e expressar-se.

Dirijo-me semanalmente a um universo democrático, que acolhe diferentes ideias, espelhando a diversidade dos leitores. Cabe-lhes tirar as devidas conclusões a respeito do que leem, seguindo a sábia orientação do apóstolo Paulo: “Examinai tudo e guardai o que for bom” (1Ts 5,21). Espero que essa tentativa de explicitar valores e fazer emergir apelos de justiça, solidariedade, respeito, honestidade, coerência e verdade, seja útil aos leitores. Tento modestamente enfatizar o pensar cristão, respeitando a diversidade de opiniões e credos. “Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos” (1Cor 12, 6).

É triste verificar que ponto se chegou nas últimas décadas. Há os que querem destruir os outros, porque pensam, creem e agem diferentemente. Não falta quem. optando por ideologias divergentes, exacerbe preconceitos, arrogância, absolutismo e intransigência, atitudes indignas de um convívio social civilizado. Há ditadores maquiados e tiranos enrustidos. Assiste-se a cenas de quase delírios, exaltações despropositadas, que beiram à insanidade e marcados de sandices. Importam a certos militantes o partido, o projeto político e o poder, não o Brasil e o bem-estar. Presenciam-se torcidas rivais, que se agridem e procuram se desconstruir. Tais absurdos vão longe, abusando-se do desrespeito. É viável não concordar com o outro e até apresentar as razões da discordância. Não é lícito, porém, feri-lo em sua dignidade nem querer destruí-lo por pensar de modo diverso. Cada um tem o direito de ser diferente, mas sem intransigência e radicalismo. A diversidade é inerente ao ser humano, teologicamente, imagem do Deus trinitário: Uno, mas em Três pessoas. Hoje há muitos profetas da tristeza, desgraça e destruição.

 A lição que Jesus deu ao mundo é insuperável. Legou o exemplo do diálogo e perdão, como dimensão essencial da vida. Atrocidades, desrespeito, desonestidade, injustiças não condizem com um país católico, o qual com os evangélicos, forma a segunda maior nação cristã do mundo. Ao escrever, busco oferecer centelhas de esperança e comunhão. Desafio difícil e exigente! Mas, os apóstolos e discípulos do Mestre colocaram por escrito a Palavra. E isto também é encarná-La. “E o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Recomenda Paulo a Timóteo “Proclama a palavra, insiste..., convence, exorta, repreende com toda longanimidade e ensinamento” (2Tm, 4,2).

Nenhum comentário:

Postar um comentário