Padre João Medeiros Filho
O apóstolo Paulo afirmava: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho” (1Cor
9, 16). Para tanto, pregava e escrevia Epístolas. A palavra oral ou escrita
move o mundo. É fonte de alegria ou tristeza, paz ou revolta, amor ou ódio,
vida ou destruição. Drummond declarou: “Um sapiente
amor me ensina a fruir da palavra a essência do ser.” Tenho
compromisso com ela, firmado na minha unção sacerdotal e quando assumi o
encargo de me sentar na cadeira de Dom Nivaldo Monte, na Academia
Norte-Rio-Grandense de Letras. Enquanto padre, jurei zelar pelo conteúdo da Palavra
(o Verbo); já como acadêmico, cabe-me zelar pela sua forma. Pregar ou
escrever é expor-se, ao revelar as próprias ideias e valores.
Escrevo num jornal laico. Considerando que essencialmente sou padre, com
frequência abordo temas cristãos. Em certos momentos, discorro sobre assuntos diversos,
passíveis de discussão. Entendo a Tribuna como espaço de reflexão e não
proselitismo ou apologética. Busco fidelidade ao pensamento da Igreja à qual me
comprometi servir. Isso não implica em subserviência, obscurantismo, ausência
de análises ou direito de sugerir ou divergir. Observados seus dogmas,
princípios morais e disciplinares, ela respeita nossa liberdade de pensar e expressar-se.
Dirijo-me semanalmente a um universo democrático, que acolhe diferentes
ideias, espelhando a diversidade dos leitores. Cabe-lhes tirar as devidas
conclusões a respeito do que leem, seguindo a sábia orientação do apóstolo
Paulo: “Examinai tudo e guardai o que
for bom” (1Ts 5,21). Espero que essa tentativa de explicitar valores e
fazer emergir apelos de justiça, solidariedade, respeito, honestidade,
coerência e verdade, seja útil aos leitores. Tento modestamente enfatizar o
pensar cristão, respeitando a diversidade de opiniões e credos. “Há diferentes
atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos” (1Cor 12, 6).
É triste verificar que ponto se chegou nas últimas décadas. Há os que
querem destruir os outros, porque pensam, creem e agem diferentemente. Não
falta quem. optando por ideologias divergentes, exacerbe preconceitos,
arrogância, absolutismo e intransigência, atitudes indignas de um convívio
social civilizado. Há ditadores maquiados e tiranos enrustidos. Assiste-se a cenas
de quase delírios, exaltações despropositadas, que beiram à insanidade e
marcados de sandices. Importam a certos militantes o partido, o projeto
político e o poder, não o Brasil e o bem-estar. Presenciam-se torcidas rivais,
que se agridem e procuram se desconstruir. Tais absurdos vão longe, abusando-se
do desrespeito. É viável não concordar com o outro e até apresentar as razões
da discordância. Não é lícito, porém, feri-lo em sua dignidade nem querer destruí-lo por pensar de modo
diverso. Cada um tem o direito de ser diferente, mas sem intransigência e
radicalismo. A diversidade é inerente ao ser humano, teologicamente, imagem do
Deus trinitário: Uno, mas em Três pessoas. Hoje
há muitos profetas da tristeza, desgraça e destruição.
A lição que Jesus deu ao mundo
é insuperável. Legou o exemplo do diálogo e perdão, como dimensão essencial da
vida. Atrocidades, desrespeito, desonestidade, injustiças não condizem com um
país católico, o qual com os evangélicos, forma a segunda maior nação cristã do
mundo. Ao escrever, busco oferecer centelhas de esperança e comunhão. Desafio
difícil e exigente! Mas, os apóstolos e discípulos do Mestre colocaram por escrito a
Palavra. E isto também é encarná-La. “E
o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Recomenda Paulo a
Timóteo “Proclama a palavra, insiste..., convence, exorta, repreende com toda
longanimidade e ensinamento” (2Tm, 4,2).
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