Padre João Medeiros Filho
Há
quem acredite na tecnologia como solução dos problemas. Não faltam discursos e
projetos de inclusão humana e social, partindo da informática. Muitos pensam
que a robótica e a inteligência artificial vão ser a resposta para tudo. Por
mais versáteis que sejam, não conseguirão reproduzir os genuínos sentimentos
humanos. A Encíclica “Magnifica Humanitas” alerta para “os cenários de exclusão
que a IA pode acarretar.” Alguns governos se jactam da informatização dos
serviços públicos. Iludem-se ao pensar que a digitalização acabará com os entraves
estruturais e administrativos. Entretanto, não se apercebem que é triste ver
pessoas dependendo de uma máquina para resolver suas dificuldades. Instala-se paulatinamente
a ditadura tecnológica. A decantada inclusão humana manifesta-se manipuladora. Os
serviços públicos e privados tornaram-se em via única, dispondo apenas de uma
forma de oferta. Onde está a prática educativa que deveria anteceder tais
novidades? A tecnologia é adotada sem o
mínimo conhecimento dos usuários. Estes reagem como sabem e podem. “Mutatis
mutandis”, é como pôr os Lusíadas nas mãos de um analfabeto. “O que detestas que te façam, não o faças a ninguém” (Tb
4, 15).
Não
raro, pensa-se apenas na prestação dos serviços e não no contribuinte. Como se
não bastasse o ônus financeiro, acrescenta-se o tecnológico. Para se obter alguns
serviços públicos, deve-se recorrer exclusivamente à internet. E quem não
dispõe desse meio ou não sabe como usá-lo? Aqueles que deveriam prover e
ensinar, não o fazem. O equipamento
eletrônico, por si só, não facilita a vida do usuário. Será mais um fator de
complicação. Procede-se de forma ditatorial, impõe-se sem conhecimento suficiente
da população. Afirmava Chaplin: “Mais do que máquinas, precisamos de humanidade.
Mais do que inteligência [artificial], necessitamos de afeição e ternura.”
Tal
prática está se alastrando em todos os setores. Para se marcar uma consulta
médica ou um exame complementar, o cidadão deverá possuir, saber manusear um
celular, lidar com o “whatsapp” e contar com a ajuda divina. Muitas vezes,
espera-se horas por atendimento. Não é insólito escutar uma gravação com os
dizeres: “Você é o décimo da lista. Aguarde o atendimento.” Não se imagina o que isto representa como
perda de tempo para o usuário. É frustrante, quando se ouve a gravação: “Por
favor, ligue mais tarde, todos os atendentes estão ocupados.” E o pior: “o
sistema está fora do ar.” Isso faz-me lembrar Oswaldo Lamartine. Quando era atendido
por uma secretária eletrônica, protestava: “Nasci
para falar com gente e não com máquina.”
Dom Helder Câmara dizia sempre: “O nosso caminho é aquele
do amor, da partilha e liberdade, e não o das máquinas.” Na década atual, tudo
virou aplicativo, código, site e senhas que devem conter números, letras
maiúsculas, minúsculas e sinais. Para obter um pouco de seus direitos, a pessoa
torna-se submissa à imposição tecnológica. Por vezes, chego a pensar: Meu Deus,
estudei e li tanto, lecionei anos e anos. Hoje para obter informações,
solicitar serviços etc., sou compelido a pedir socorro a quem domina a parafernália
eletrônica.
Muitos que ajudaram a construir este país sentem-se inúteis,
analfabetos e marginalizados. Isso não é inclusão inovadora, é pura exclusão ou
alijamento sofisticado. A tecnologia deve ajudar todos e proporcionar a
dignidade humana e não fortalecer alguns em detrimento de
tantos. Cabe lembrar o poeta Mário Quintana: “Vamos abrindo mão dos
conhecimentos, pois no mundo em que vivemos eles são obsoletos e não há mais
certezas.” Ignora-se o conselho do apóstolo Paulo: “Os poderosos devem respeitar as limitações dos outros e não buscar só o que lhes agrada” (Rm
15, 1).
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