Padre João Medeiros Filho
O registro de nossa história eclesiástica contém poucos
dados disponíveis. Em “História do Rio Grande do Norte”, Câmara Cascudo narrou
os primórdios do catolicismo em solo potiguar, indicando elementos sobre as
paróquias (oragos e datas de criação), até a década de 1950. Em 1937, Monsenhor
Paulo Herôncio de Melo legou-nos o primeiro relato sobre o martírio de Cunhaú e
Uruaçu. Dom Eliseu Simões Mendes contribuiu com anotações para a história da
diocese mossoroense. Sua visão desenvolvimentista subjacente no projeto da
“Missão Rural” merece estudos acurados. Dignos de encômios são os apontamentos
de Monsenhor Francisco Sales Cavalcante: “A Paróquia de Santa
Luzia” e o “Colégio Diocesano de Mossoró”. Em 1985 e 1987, Monsenhor Severino
Bezerra lançou “Levitas do Senhor” (2vol), pequenas biografias de sacerdotes
que aqui nasceram ou exerceram seu ministério, nos séculos XVIII a XX. Padre
Normando Pignataro Delgado, em sua obra “Paróquias potiguares: uma história”, discorreu
sobre 98 paróquias norte-rio-grandenses até os idos de 1980. Padre Francisco de
Assis Costa, Diretor do Colégio Diocesano Seridoense, coligiu algumas memórias do referido educandário, no ensejo dos 80 de sua fundação, festejados em
2022. Aconselha-nos o profeta Isaías “Lembrem-se de coisas passadas e
fatos antigos” (Is 46, 9).
Se
porventura alguém perguntar pelos renomados oradores sacros potiguares,
faltam-nos fontes de pesquisa, exceto parcas anotações em alguns livros de
tombo paroquiais. Caso o questionamento verse sobre abnegados educadores
eclesiásticos, haverá lacunas significativas na documentação. Monsenhor Amâncio
Ramalho é pouco lembrado. O eminente sacerdote dirigiu oito colégios em cinco
estados brasileiros (RN, PB, PE, BA e PI). Foi o primeiro titular do
Departamento de Educação, que precedeu a Secretaria Estadual de Educação (RN).
É profícuo o itinerário de escolas católicas, dentre elas: Marista, Salesiano, Salesianas,
Coração de Maria, Santa Teresinha, N.S. das Vitórias, Jesus Menino. Carecem de
relato escrito sobre suas trajetórias. Infelizmente, são olvidadas as admiráveis
realizações educacionais de Dom Delgado no Seridó. No entanto, é importante
assinalar o papel da Igreja na educação no RN, inclusive no ensino superior. Luís Eduardo Suassuna, no Conselho Estadual de
Educação do RN, preocupa-se em colher dados
sobre os patronos das escolas de educação básica, destacando os vultos
religiosos.
Figuras notáveis de nosso clero são desconhecidas. É o
caso do Padre Sebastião Constantino de Medeiros, governador do bispado de
Olinda, durante a prisão de Dom Vital. Tornando-se jesuíta, foi o primeiro
brasileiro a lecionar na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Graças aos
esforços do acadêmico Jurandir Navarro, dispõe-se de parte substancial da
produção literária de Cônego Monte. Monsenhor Huberto
Bruening (pároco da Catedral de Mossoró) deixou ricas anotações sobre a apicultura
brasileira. É falha grave ignorar tantos padres escritores,
como Dom Nivaldo Monte.
O Movimento de Natal foi objeto da tese doutoral de Alceu
Ferrari, intitulada “Igreja e Desenvolvimento”.
Cônego Eugène Collard, em “A Igreja na encruzilhada dos caminhos”, narra
para os europeus essa rica experiência pastoral. O trabalho das escolas
radiofônicas tampouco merece ficar marginalizado. Precedeu Paulo Freire,
contribuindo para a alfabetização e educação integral de inúmeros
norte-rio-grandenses. Quanto aos meios de comunicação (rádios e periódicos), a
Igreja potiguar desempenhou papel relevante. O jornal “A Ordem” foi destaque
nas décadas passadas, respeitado por intelectuais. Ali, brilharam líderes
católicos, que orgulham a nossa terra. As primeiras instituições de assistência
à saúde e aos idosos do RN foram iniciativas da Igreja. Como esquecer o Hospital
Padre João Maria (Currais Novos)? A Igreja
tem deixado uma marca notável de serviço e presença junto ao Povo de Deus.
A Academia Norte-rio-grandense de Letras, por intermédio de
Cônego Monte, recebeu também influência de Dom José Pereira Alves, terceiro
bispo natalense, membro e presidente da Academia Pernambucana de Letras. “Ele
foi um de nossos maiores oradores sacros, arrebatando palmas nas naves da
antiga Catedral da Apresentação”, relata Padre José Freitas Campos, em “O
Mestre da Palavra”. Além desta obra, o ilustre sacerdote legou-nos a biografia
de Frei Miguelinho, História dos Primeiros Mártires do Brasil e Conexões de
Memorias da Igreja do RN. Cônego José Mário de Medeiros brindou-nos com as biografias
de Dom Marcolino e Dom Tavares. A Igreja potiguar deve cuidar de sua história. “Muitas vezes e de modos diversos, Deus falou outrora a nossos pais” (Hb
1, 1).
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