terça-feira, 24 de março de 2026

Por uma História da Igreja Potiguar

 



Padre João Medeiros Filho

O registro de nossa história eclesiástica contém poucos dados disponíveis. Em “História do Rio Grande do Norte”, Câmara Cascudo narrou os primórdios do catolicismo em solo potiguar, indicando elementos sobre as paróquias (oragos e datas de criação), até a década de 1950. Em 1937, Monsenhor Paulo Herôncio de Melo legou-nos o primeiro relato sobre o martírio de Cunhaú e Uruaçu. Dom Eliseu Simões Mendes contribuiu com anotações para a história da diocese mossoroense. Sua visão desenvolvimentista subjacente no projeto da “Missão Rural” merece estudos acurados. Dignos de encômios são os apontamentos de Monsenhor Francisco Sales Cavalcante: “A Paróquia de Santa Luzia” e o “Colégio Diocesano de Mossoró”. Em 1985 e 1987, Monsenhor Severino Bezerra lançou “Levitas do Senhor” (2vol), pequenas biografias de sacerdotes que aqui nasceram ou exerceram seu ministério, nos séculos XVIII a XX. Padre Normando Pignataro Delgado, em sua obra “Paróquias potiguares: uma história”, discorreu sobre 98 paróquias norte-rio-grandenses até os idos de 1980. Padre Francisco de Assis Costa, Diretor do Colégio Diocesano Seridoense, coligiu algumas memórias do referido educandário, no ensejo dos 80 de sua fundação, festejados em 2022. Aconselha-nos o profeta Isaías “Lembrem-se de coisas passadas e fatos antigos” (Is 46, 9).

Se porventura alguém perguntar pelos renomados oradores sacros potiguares, faltam-nos fontes de pesquisa, exceto parcas anotações em alguns livros de tombo paroquiais. Caso o questionamento verse sobre abnegados educadores eclesiásticos, haverá lacunas significativas na documentação. Monsenhor Amâncio Ramalho é pouco lembrado. O eminente sacerdote dirigiu oito colégios em cinco estados brasileiros (RN, PB, PE, BA e PI). Foi o primeiro titular do Departamento de Educação, que precedeu a Secretaria Estadual de Educação (RN). É profícuo o itinerário de escolas católicas, dentre elas: Marista, Salesiano, Salesianas, Coração de Maria, Santa Teresinha, N.S. das Vitórias, Jesus Menino. Carecem de relato escrito sobre suas trajetórias. Infelizmente, são olvidadas as admiráveis realizações educacionais de Dom Delgado no Seridó. No entanto, é importante assinalar o papel da Igreja na educação no RN, inclusive no ensino superior. Luís Eduardo Suassuna, no Conselho Estadual de Educação do RN, preocupa-se em colher dados sobre os patronos das escolas de educação básica, destacando os vultos religiosos.

Figuras notáveis de nosso clero são desconhecidas. É o caso do Padre Sebastião Constantino de Medeiros, governador do bispado de Olinda, durante a prisão de Dom Vital. Tornando-se jesuíta, foi o primeiro brasileiro a lecionar na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Graças aos esforços do acadêmico Jurandir Navarro, dispõe-se de parte substancial da produção literária de Cônego Monte. Monsenhor Huberto Bruening (pároco da Catedral de Mossoró) deixou ricas anotações sobre a apicultura brasileira. É falha grave ignorar tantos padres escritores, como Dom Nivaldo Monte.

O Movimento de Natal foi objeto da tese doutoral de Alceu Ferrari, intitulada “Igreja e Desenvolvimento”.  Cônego Eugène Collard, em “A Igreja na encruzilhada dos caminhos”, narra para os europeus essa rica experiência pastoral. O trabalho das escolas radiofônicas tampouco merece ficar marginalizado. Precedeu Paulo Freire, contribuindo para a alfabetização e educação integral de inúmeros norte-rio-grandenses. Quanto aos meios de comunicação (rádios e periódicos), a Igreja potiguar desempenhou papel relevante. O jornal “A Ordem” foi destaque nas décadas passadas, respeitado por intelectuais. Ali, brilharam líderes católicos, que orgulham a nossa terra. As primeiras instituições de assistência à saúde e aos idosos do RN foram iniciativas da Igreja. Como esquecer o Hospital Padre João Maria (Currais Novos)? A Igreja tem deixado uma marca notável de serviço e presença junto ao Povo de Deus.

A Academia Norte-rio-grandense de Letras, por intermédio de Cônego Monte, recebeu também influência de Dom José Pereira Alves, terceiro bispo natalense, membro e presidente da Academia Pernambucana de Letras. “Ele foi um de nossos maiores oradores sacros, arrebatando palmas nas naves da antiga Catedral da Apresentação”, relata Padre José Freitas Campos, em “O Mestre da Palavra”. Além desta obra, o ilustre sacerdote legou-nos a biografia de Frei Miguelinho, História dos Primeiros Mártires do Brasil e Conexões de Memorias da Igreja do RN. Cônego José Mário de Medeiros brindou-nos com as biografias de Dom Marcolino e Dom Tavares. A Igreja potiguar deve cuidar de sua história. “Muitas vezes e de modos diversos, Deus falou outrora a nossos pais” (Hb 1, 1).

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