terça-feira, 3 de março de 2026

O corpo, templo divino

 


Padre João Medeiros Filho

O poeta satírico Juvenal viveu em Roma, entre 55-127 A.D. Tecia duras críticas aos imperadores romanos, especialmente Domiciano, por oferecer apenas pão e circo à população. Comenta-se que era atleta. Dele é a frase: “Mens sana in corpore sano” (“Mente sadia num corpo são”), muito usada nas escolas para despertar o interesse dos alunos pela educação física. O cuidado com o corpo é bíblico. “Não sabeis que vosso corpo é santuário daquele que habita em vós?” (1Cor 6,19), insiste o apóstolo Paulo. Eis as bases de uma “teologia da corporeidade humana”, inspirada também no Gênesis. “Fomos criados à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 26-27). Santo Agostinho pregava aos fiéis de Hipona: “Tende cuidado com vosso corpo. Ele é o santuário de vossa alma.”

No Seminário, ouvia amiúde tais afirmações. Entretanto, desde criança, tenho tendência cartesiana. Menosprezava atividades físicas, permanecendo sedentário e leitor compulsivo. Observava as recomendações dos médicos e profissionais da saúde muito mais “por obrigação do que por devoção.” Meu corpo protestou contra a minha incúria, tendo chegado a um estágio avançado de artrose nos joelhos. Fiquei dependente de uma cadeira de rodas. As prescrições de alguns profissionais não lograram êxito. Não fora o meu bom humor (herança paterna) teria mergulhado em profunda depressão. Mas, Deus não nos desampara. “Ele é nosso refúgio e fortaleza, socorro sempre encontrado nos perigos” (Sl 46/45, 1).

O tempo foi passando. Não me revoltava diante de meu quadro, mesmo ao escutar de profissionais da saúde: “Não há mais jeito, tudo é paliativo.” Analgésicos, anti-inflamatórios, infiltrações, pomadas e sessões fisioterápicas com aparelhos entraram na minha rotina. Mas, há pacientes que necessitam do toque físico e de mãos humanas. “Estas transmitem também a energia de quem cura”, lembra um princípio da medicina oriental. Cristo tocava os enfermos (Mt 8, 13; Mc 1, 40; Lc 4, 40 etc.). Advertia também Chaplin: “Sois homens e não máquinas.” Hoje, há quem priorize exames sofisticados, alta tecnologia e aparelhos. Sábias as lições de Dr. Celso Matias de Almeida: “A clínica é soberana. As melhores sondas são os nossos dedos.” Pairavam dúvidas em mim.

Deus tem os seus caminhos e a sua hora. Tocam-me sempre as frases do profeta Isaías: “Os meus pensamentos não são os vossos... Meus planos estão acima dos vossos” (Is 55,8). O tempo de Deus não segue a cronologia humana. No meio de tantas angústias e incertezas, não me insurgia, confiava e me entregava “Àquele que me fortalece: Jesus Cristo” (Fl 4,13). Chegava a brincar com meus amigos e irmãos sacerdotes, dizendo: “Já fui quase cego, hoje sou cadeirante e a surdez já dá sinais. Enquanto a lucidez predomina, registro minha gratidão a muitos. Hoje, ela se destina especialmente a meu fisioterapeuta Gildásio Lucas de Lucena. Narro tais fatos para ajudar alguns a refletir diante de situações análogas. Escreveu o profeta Naum: “Deus protege em quem Nele confia (Na 1,8).

Um dia, Gildásio veio visitar-me, trazido por meu amigo Monsenhor Lucas. Acreditou em mim e viu que poderia me ajudar. Dominando bem anatomia, fisiologia, biomecânica e ética, iniciou o tratamento. Sempre explicava a razão de cada ato, pois percebia meu ceticismo. Trata-se de excelente professor, mestre, doutor e pesquisador na sua área. Demonstrou que as técnicas importam na reabilitação. Entretanto, elas pouco valem sem o convencimento de quem as recebe ou o amor, carinho e dedicação de quem as aplica. A primeira preocupação era reativar meus músculos adormecidos. Não foi tarefa fácil, por conta do tempo de inatividade e descrença do paciente. Na melhora de meu quadro atual devo lembrar igualmente o contributo da querida fisioterapeuta Daliany e do bem que me fez no pós-Covid.  Meu corpo começou a reagir positivamente, à medida em que me convencia do valor da fisioterapia. A melhora acontece com a simbiose entre paciente e terapeuta. Antes, eu dependia de alguém para as tarefas básicas do cotidiano. Faz-me lembrar Unamuno: “Il n’y a pas de maladies, mais seulement des malades” (Não há doenças, mas doentes). Minha profunda e permanente gratidão a Deus. “Provai e vede como é bom o Senhor. É feliz quem nele confia” (Sl 34/33, 9).

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