Padre João Medeiros Filho
A pedido de leitores, escolhi pautar este artigo. O
profeta Isaías revela uma realidade teológica, exaltando a supremacia divina em
relação ao ser humano: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos e
vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55, 8). Diga-se o mesmo da
Igreja, sacramento do Filho de Deus. A lógica divina difere dos métodos e
planos humanos. A vinda de Dom João Santos Cardoso para ser o nosso metropolita
e posteriormente a nomeação de Dom José Sílvio de Brito (natural de Cruzeta/RN)
para seu bispo auxiliar foram agradáveis surpresas. Dom João veio para o RN descalço,
como um frade carmelita, despojado como um franciscano, ouvinte e questionador ao
estilo jesuíta, missionário e pregador à semelhança de um dominicano ou
redentorista, reflexivo e orante, inspirado em Santo Agostinho. Nosso pastor aqui
chegou, revestido de sua fé, seu amor à Igreja, com seus três pets
e a certeza da mão estendida d’Aquele que nos conforta. Aliás, é o seu icônico lema episcopal: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl
4, 13).
Registrei estas notas, no limiar de meus oitenta e cinco
anos, antes que a lucidez brigue comigo e me abandone. Há fatos e feitos que
não posso esquecer. Muitos não esperavam em fevereiro a escolha de Dom Sílvio
para o episcopado. Não que lhe faltasse mérito. Comenta-se que outros nomes
eram cogitados nas sacristias e casas paroquiais. Ele detém muito das virtudes
de nosso arcebispo: discreto, simples, avesso à fama e aos holofotes, focado na
pregação do Evangelho. Para mim não foi inesperado.
Este velho escriba confessa sua admiração ao ver nosso pastor
chegar aqui, há quase três anos, de mãos vazias, desarmado, coração aberto para
acolher e perdoar, imbuído do amor a Cristo e à Igreja. Nada pediu, desejava
primeiro ouvir e rezar para agir na hora de Deus. Para cá não o acompanhou
nenhum sacerdote ou auxiliar. Começou o pastoreio como o Mestre, e foi
conquistando os discípulos. Segundo a rotina eclesiástica, é comum a um bispo,
ao ser nomeado para uma diocese desconhecida, levar consigo ao menos um
secretário. Dom Joaquim Antônio de Almeida, nosso
primeiro antístite, ao tomar posse da diocese do RN, trouxe para Natal seis auxiliares. Dom
João, nesse e em outros aspectos, procurou seguir as pegadas do Mestre.
Na homilia da Eucaristia, em memória dos quatorze anos de
vida episcopal, Dom João anunciou efusivamente, como presente de Deus, a
nomeação de seu primeiro bispo auxiliar. Mais um exemplo de despojamento e
valorização do clero potiguar. Não seria menoscabo se tivesse indicado um padre
amigo, oriundo de outras dioceses. Escolheu, dentre os sacerdotes da
arquidiocese, um dos assessores mais próximos. Isso demonstra respeito e
consideração ao nosso clero. Este gesto tampouco o impede de indicar um
presbítero de outros bispados para ocupar as futuras dioceses (Assú e Santa
Cruz). O que deve falar mais alto é o bem da Igreja. Nosso arcebispo segue Jesus:
“caminhando junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos (Simão Pedro e André) e
os chamou.” (Mt 4,18). Ao escolher seu primeiro bispo auxiliar, seguiu a
tradição de seus antecessores Dom Marcolino e Dom Nivaldo. Entretanto, isso não
é um impeditivo para outras escolhas, nem desdouro se vier acontecer.
Dom
João e Dom Sílvio continuarão abrindo novos caminhos com a força da Palavra
Sagrada, colhendo frutos para o bem do Povo de Deus. O desejo que move nosso
arcebispo e seu bispo auxiliar é o de compreender, perdoar, amar, viver e
difundir o Evangelho, construindo a beleza da Igreja e contribuindo para que
possa ecoar sempre a melodia da graça divina. Como nosso Pastor, Dom Sílvio detém
as virtudes da simplicidade e ternura
evangélicas, independência diante das coisas efêmeras, aceitando o desafio de
servir e deleitar-se com o Sagrado. Ambos entendem o poder, em
qualquer instância, como um serviço. Dizia Dom Delgado, um grande bispo que
pisou o chão do Seridó: “O poder só tem sentido, quando busca melhorar a vida dos outros e aumenta a sede
de Deus.” Cristo advertia: “Quem quiser ser o maior, seja aquele que vos serve”
(Mc 10,43).

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