terça-feira, 17 de março de 2026

Dom João e Dom Sílvio

 

Padre João Medeiros Filho

A pedido de leitores, escolhi pautar este artigo. O profeta Isaías revela uma realidade teológica, exaltando a supremacia divina em relação ao ser humano: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos e vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55, 8). Diga-se o mesmo da Igreja, sacramento do Filho de Deus. A lógica divina difere dos métodos e planos humanos. A vinda de Dom João Santos Cardoso para ser o nosso metropolita e posteriormente a nomeação de Dom José Sílvio de Brito (natural de Cruzeta/RN) para seu bispo auxiliar foram agradáveis surpresas. Dom João veio para o RN descalço, como um frade carmelita, despojado como um franciscano, ouvinte e questionador ao estilo jesuíta, missionário e pregador à semelhança de um dominicano ou redentorista, reflexivo e orante, inspirado em Santo Agostinho. Nosso pastor aqui chegou, revestido de sua fé, seu amor à Igreja, com seus três pets e a certeza da mão estendida d’Aquele que nos conforta. Aliás, é o seu icônico lema episcopal: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4, 13).

Registrei estas notas, no limiar de meus oitenta e cinco anos, antes que a lucidez brigue comigo e me abandone. Há fatos e feitos que não posso esquecer. Muitos não esperavam em fevereiro a escolha de Dom Sílvio para o episcopado. Não que lhe faltasse mérito. Comenta-se que outros nomes eram cogitados nas sacristias e casas paroquiais. Ele detém muito das virtudes de nosso arcebispo: discreto, simples, avesso à fama e aos holofotes, focado na pregação do Evangelho. Para mim não foi inesperado.

Este velho escriba confessa sua admiração ao ver nosso pastor chegar aqui, há quase três anos, de mãos vazias, desarmado, coração aberto para acolher e perdoar, imbuído do amor a Cristo e à Igreja. Nada pediu, desejava primeiro ouvir e rezar para agir na hora de Deus. Para cá não o acompanhou nenhum sacerdote ou auxiliar. Começou o pastoreio como o Mestre, e foi conquistando os discípulos. Segundo a rotina eclesiástica, é comum a um bispo, ao ser nomeado para uma diocese desconhecida, levar consigo ao menos um secretário. Dom Joaquim Antônio de Almeida, nosso primeiro antístite, ao tomar posse da diocese do RN, trouxe para Natal seis auxiliares. Dom João, nesse e em outros aspectos, procurou seguir as pegadas do Mestre.

Na homilia da Eucaristia, em memória dos quatorze anos de vida episcopal, Dom João anunciou efusivamente, como presente de Deus, a nomeação de seu primeiro bispo auxiliar. Mais um exemplo de despojamento e valorização do clero potiguar. Não seria menoscabo se tivesse indicado um padre amigo, oriundo de outras dioceses. Escolheu, dentre os sacerdotes da arquidiocese, um dos assessores mais próximos. Isso demonstra respeito e consideração ao nosso clero. Este gesto tampouco o impede de indicar um presbítero de outros bispados para ocupar as futuras dioceses (Assú e Santa Cruz). O que deve falar mais alto é o bem da Igreja. Nosso arcebispo segue Jesus: “caminhando junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos (Simão Pedro e André) e os chamou.” (Mt 4,18). Ao escolher seu primeiro bispo auxiliar, seguiu a tradição de seus antecessores Dom Marcolino e Dom Nivaldo. Entretanto, isso não é um impeditivo para outras escolhas, nem desdouro se vier acontecer.

Dom João e Dom Sílvio continuarão abrindo novos caminhos com a força da Palavra Sagrada, colhendo frutos para o bem do Povo de Deus. O desejo que move nosso arcebispo e seu bispo auxiliar é o de compreender, perdoar, amar, viver e difundir o Evangelho, construindo a beleza da Igreja e contribuindo para que possa ecoar sempre a melodia da graça divina. Como nosso Pastor, Dom Sílvio detém as virtudes da simplicidade e ternura evangélicas, independência diante das coisas efêmeras, aceitando o desafio de servir e deleitar-se com o Sagrado. Ambos entendem o poder, em qualquer instância, como um serviço. Dizia Dom Delgado, um grande bispo que pisou o chão do Seridó: “O podertem sentido, quando busca melhorar a vida dos outros e aumenta a sede de Deus.” Cristo advertia: “Quem quiser ser o maior, seja aquele que vos serve” (Mc 10,43).

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