Padre João
Medeiros Filho
Na cultura hebraica, a
numerologia é habitual e plena de simbolismos. Não raro, a Igreja alimenta-se
liturgicamente de símbolos. Estes são abertos, enquanto a palavra linear é
fechada e, muitas vezes, limitada. O número quarenta aparece frequentemente na
Sagrada Escritura. Significa mudança, renovação, início etc. No catolicismo, a
quaresma consiste num período apropriado de reflexão, mudança, reinício e
purificação. Ela vai da Quarta-Feira de Cinzas até a Quinta-Feira Santa. Neste
ano de 2026, estende-se de 18 de fevereiro a 2 de abril.
A Bíblia narra que, nos
primórdios da humanidade, num espaço igual de tempo caíram chuvas copiosas,
causando um dilúvio (cf. Gn 7,17). Na ocasião, Noé valeu-se da Arca. Os infiéis
foram eliminados e firma-se um novo compromisso de Aliança com a humanidade,
representada por Noé e os seres vivos, cujas espécies estavam presentes na Arca
(cf. Gn 9,12). O número quarenta aparece em vários momentos da História da
Salvação. A travessia do povo hebreu pelo deserto – distanciando-se da
escravidão do Egito até chegar à Terra Prometida – aconteceu também durante
esse número de anos. Jesus jejuou no deserto idêntica quantidade de dias e
noites. Quarenta representa purificação, renovação,
conversão. Eis o motivo pelo qual tal número se liga igualmente à quaresma.
Somos
convidados a meditar sobre nosso destino e condição de filhos de Deus, no
período quaresmal. Durante esse ciclo litúrgico, a Igreja recorda-nos a marcha
do Povo de Deus, peregrinando em direção a Canaã. Portanto, a quaresma está
ligada também à caminhada. Como nos rituais do Antigo Testamento, ela
exorta-nos ao jejum e à conversão (em grego: metanóia). Na sociedade hodierna,
fala-se muito na linguagem administrativa, financeira e biomédica em cortar excessos.
Com o jejum deseja a Igreja que possamos ser capazes de suprimir as gorduras de
egoísmo, desamor, vaidade, violência e injustiça. Na sociedade atual de culto
ao corpo, malha-se muito. Inúmeras modalidades
de exercícios são praticadas e ensinadas. As cidades estão inundadas por
academias e clínicas de exercícios físicos. Jejuar inclui malhar espiritualmente,
eliminar os excessos nocivos ao ser humano para dar lugar ao encontro do Deus
Vivo.
A
quaresma marca também o êxodo do Povo de Deus em busca da Terra Prometida. A
partir daí, a Igreja chama a atenção sobre a nossa trajetória diária. E a
liturgia proporciona-nos um espaço e período anual a fim de realizarmos uma
viagem ao interior de nós mesmos. Assim, voltando ao que é verdadeiramente
nosso, possamos nos deparar com o que ali deixamos, encontrando-o renovado. Às
vezes, de volta à casa, depois de meses ou anos, muita coisa não existe mais.
Da mesma maneira, “o que
é velho” (Ef 4, 22), no dizer do apóstolo Paulo, deverá desaparecer para
dar lugar à (re)descoberta de Deus. Esse tempo privilegiado na vida cristã não
é apenas um período litúrgico, mas um momento ao longo de nossas vidas, em que
devemos retornar, com a ajuda da graça divina, ao nosso interior. E ali, é crucial
realizar o encontro com nossos erros e
virtudes.
A celebração quaresmal convida-nos
ao despojamento para um renascer. A cerimônia de cinzas significa o fim de tudo
o que nos afasta do Pai e de nós mesmos. É preciso reduzir a pó a mentira, o
egoísmo, a insensibilidade, em suma, erros, limitações e pecados, para que
possa ressurgir em nós o “homem novo”, que Cristo Jesus veio trazer ao mundo.
As cinzas traduzem simbolicamente nossa conversão, o queimar de nossos erros e
o brotar de novos planos. Lembremo-nos da mitologia em que Fênix renasce das
cinzas. Por isso deve aflorar em cada um de nós o desejo autêntico de escuta da
palavra de Deus. Caminhar ou viajar pode nos ensejar uma oportunidade de conviver
e dialogar. Eis uma das razões da inserção da Campanha da Fraternidade, durante
o tempo quaresmal. O Povo de Deus, em sua busca esperava ter uma pátria e
morada. Entende-se a razão pela qual a Igreja em 2026 colocou como tema da CF:
“Fraternidade e moradia”. Vale lembrar que um dia “o Verbo de Deus veio morar
entre nós” (Jo 1,14).
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