segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O sentido do tempo quaresmal

 



Padre João Medeiros Filho

Na cultura hebraica, a numerologia é habitual e plena de simbolismos. Não raro, a Igreja alimenta-se liturgicamente de símbolos. Estes são abertos, enquanto a palavra linear é fechada e, muitas vezes, limitada. O número quarenta aparece frequentemente na Sagrada Escritura. Significa mudança, renovação, início etc. No catolicismo, a quaresma consiste num período apropriado de reflexão, mudança, reinício e purificação. Ela vai da Quarta-Feira de Cinzas até a Quinta-Feira Santa. Neste ano de 2026, estende-se de 18 de fevereiro a 2 de abril.

A Bíblia narra que, nos primórdios da humanidade, num espaço igual de tempo caíram chuvas copiosas, causando um dilúvio (cf. Gn 7,17). Na ocasião, Noé valeu-se da Arca. Os infiéis foram eliminados e firma-se um novo compromisso de Aliança com a humanidade, representada por Noé e os seres vivos, cujas espécies estavam presentes na Arca (cf. Gn 9,12). O número quarenta aparece em vários momentos da História da Salvação. A travessia do povo hebreu pelo deserto – distanciando-se da escravidão do Egito até chegar à Terra Prometida – aconteceu também durante esse número de anos. Jesus jejuou no deserto idêntica quantidade de dias e noites. Quarenta representa purificação, renovação, conversão. Eis o motivo pelo qual tal número se liga igualmente à quaresma.

Somos convidados a meditar sobre nosso destino e condição de filhos de Deus, no período quaresmal. Durante esse ciclo litúrgico, a Igreja recorda-nos a marcha do Povo de Deus, peregrinando em direção a Canaã. Portanto, a quaresma está ligada também à caminhada. Como nos rituais do Antigo Testamento, ela exorta-nos ao jejum e à conversão (em grego: metanóia). Na sociedade hodierna, fala-se muito na linguagem administrativa, financeira e biomédica em cortar excessos. Com o jejum deseja a Igreja que possamos ser capazes de suprimir as gorduras de egoísmo, desamor, vaidade, violência e injustiça. Na sociedade atual de culto ao corpo, malha-se muito. Inúmeras modalidades de exercícios são praticadas e ensinadas. As cidades estão inundadas por academias e clínicas de exercícios físicos. Jejuar inclui malhar espiritualmente, eliminar os excessos nocivos ao ser humano para dar lugar ao encontro do Deus Vivo.

A quaresma marca também o êxodo do Povo de Deus em busca da Terra Prometida. A partir daí, a Igreja chama a atenção sobre a nossa trajetória diária. E a liturgia proporciona-nos um espaço e período anual a fim de realizarmos uma viagem ao interior de nós mesmos. Assim, voltando ao que é verdadeiramente nosso, possamos nos deparar com o que ali deixamos, encontrando-o renovado. Às vezes, de volta à casa, depois de meses ou anos, muita coisa não existe mais. Da mesma maneira, “o que é velho” (Ef 4, 22), no dizer do apóstolo Paulo, deverá desaparecer para dar lugar à (re)descoberta de Deus. Esse tempo privilegiado na vida cristã não é apenas um período litúrgico, mas um momento ao longo de nossas vidas, em que devemos retornar, com a ajuda da graça divina, ao nosso interior. E ali, é crucial realizar o encontro com nossos erros e virtudes.

A celebração quaresmal convida-nos ao despojamento para um renascer. A cerimônia de cinzas significa o fim de tudo o que nos afasta do Pai e de nós mesmos. É preciso reduzir a pó a mentira, o egoísmo, a insensibilidade, em suma, erros, limitações e pecados, para que possa ressurgir em nós o “homem novo”, que Cristo Jesus veio trazer ao mundo. As cinzas traduzem simbolicamente nossa conversão, o queimar de nossos erros e o brotar de novos planos. Lembremo-nos da mitologia em que Fênix renasce das cinzas. Por isso deve aflorar em cada um de nós o desejo autêntico de escuta da palavra de Deus. Caminhar ou viajar pode nos ensejar uma oportunidade de conviver e dialogar. Eis uma das razões da inserção da Campanha da Fraternidade, durante o tempo quaresmal. O Povo de Deus, em sua busca esperava ter uma pátria e morada. Entende-se a razão pela qual a Igreja em 2026 colocou como tema da CF: “Fraternidade e moradia”. Vale lembrar que um dia “o Verbo de Deus veio morar entre nós” (Jo 1,14).

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