PADRE JOÃO MEDEIRS FILHO.
O mundo caminha na contramão da doutrina que Cristo
transmitiu a seus discípulos: “Aprendei de mim que sou manso e humilde.” (Mt
11, 29). Mansidão e humildade, virtudes destacadas pelo Mestre, opõem-se sempre
a qualquer tipo de arrogância e prepotência. Durante sua vida pública, o Filho
de Deus deparou-se com a bazófia dos doutores da lei, escribas e fariseus.
Procurou chamar a atenção de seus seguidores para o descaso e abuso das
autoridades de seu tempo. Diante da presunção deles – uma das faces da
prepotência – chamou-os de “sepulcros caiados” (Mt 23, 27). Jesus sempre condenou a atitude do dedo em
riste, criticar levianamente e acusar sem provas, culpar sem motivos e destruir
sem diálogo. Este comportamento domina o Brasil hodierno. Cristo contrapôs sua
mensagem a tais atitudes. “Bem-aventurados os mansos” (Mt 5, 5). A lógica cristã está delineada no Evangelho: “Todo aquele que se
exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” (Mt 23, 12). Vale
lembrar um antigo ritual da coroação do papa. Ao colocar a
tiara, símbolo do poder pontifício, um dos cardeais pronunciava estas palavras:
“Sancte Pater, sic transit gloria mundi!” (Santo Padre, a
glória do mundo é transitória).
Etimologicamente,
a palavra arrogância deriva do verbo latino “adrogare”, que significa exigir
para si. No Império Romano, era utilizada para definir alguém que se
considerava no direito de impor um reconhecimento que não lhe cabia. Arrogantes
de diferentes tipos estão hoje em alta na vida pública e nas redes sociais.
Trata-se de atribuir
a si poderes ou privilégios, impondo uma suposta superioridade. É manifestação
de narcisismo, deslumbramento decorrente de algum frágil predicado ou ausência
deste. Segundo os estudiosos da mente humana, trata-se do sentimento de quem se
acredita melhor e mais capaz – moral, religiosa, social, política ou
intelectualmente – do que os seus semelhantes. Resultado disso é o desprezo em
relação aos outros, vaidade e soberba ostensivas. É típico do
prepotente acreditar-se
dono absoluto da verdade, demonstrando supremacia sobre os demais.
O
tribuno romano Marco Túlio Cícero afirmou peremptoriamente: “Quanto mais
medíocre, mais arrogante. O sábio não impõe.” O Salvador sempre se mostrara
despretensioso e propositivo. Quanto mais santidade e sabedoria, mais pureza e
humildade, ou seja, consciência de suas limitações. Os soberbos vestem a túnica
da empáfia para ocultar sua ilusão e, por vezes, a própria mediocridade. A
arrogância embriaga e ilude, faz perder a noção e a lucidez da condição humana.
É sempre oportuna a orientação do apóstolo Paulo: “Nada façais por contenda ou
vanglória, mas com humildade. Cada um considere os outros como superiores a si
mesmo.” (Fl 2, 3).
A gênese
da arrogância e de seus equivalentes, não raro, está nos recalques e
frustrações que se procuram esconder nos gestos e palavras intransigentes. O
presunçoso ameaça, procura humilhar, agride e persegue. É um obcecado por
destruição. Sente prazer mórbido em descontruir quem o desagrada. Em geral,
guarda uma amargura e um azedume interiores, buscando atingir seu semelhante
com o ódio ou desprezo. Geralmente, ignora a polidez, educação e urbanidade. As
pessoas pedantes tendem a ser ácidas e manter relações tóxicas. A ausência da
paz dissemina um clima de negatividade. São pessoas inseguras, dominadas pelo
medo de ser descobertas em sua pobreza interior.
A arrogância e seus
congêneres têm levado muitos a desvarios em pronunciamentos inconsequentes que,
não obstante, ecoam fortemente. O nível de morbidez da sociedade é tão
expressivo que narrativas e discursos equivocados, marcados de petulância e
sofismas, têm mais receptividade e adesão do que as perspectivas construtivas.
No entanto, somente estas são capazes de desencadear uma qualificada
configuração sociopolítica, religiosa e emocional. A prepotência hospeda
discursos negativos e deletérios, sem contribuir para a solução dos problemas
que afligem a humanidade. A prepotência é a máscara dos fracos. As posturas de
suposta autossuficiência e a ilusão de ocupar uma posição de superioridade são
confrontadas pela implacável realidade: quem é o ser humano, habitante deste
“pálido ponto azul”, que é o planeta terra,
na imensidão do Universo? Assim aconselha a Sagrada Escritura: “A soberba acaba por trazer
humilhação, enquanto a humildade leva-nos à glorificação!” (Pv 29, 23).
Nenhum comentário:
Postar um comentário