terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Marcas de arrogância e prepotência

 


           PADRE JOÃO MEDEIRS FILHO.


O mundo caminha na contramão da doutrina que Cristo transmitiu a seus discípulos: “Aprendei de mim que sou manso e humilde.” (Mt 11, 29). Mansidão e humildade, virtudes destacadas pelo Mestre, opõem-se sempre a qualquer tipo de arrogância e prepotência. Durante sua vida pública, o Filho de Deus deparou-se com a bazófia dos doutores da lei, escribas e fariseus. Procurou chamar a atenção de seus seguidores para o descaso e abuso das autoridades de seu tempo. Diante da presunção deles – uma das faces da prepotência – chamou-os de “sepulcros caiados” (Mt 23, 27).  Jesus sempre condenou a atitude do dedo em riste, criticar levianamente e acusar sem provas, culpar sem motivos e destruir sem diálogo. Este comportamento domina o Brasil hodierno. Cristo contrapôs sua mensagem a tais atitudes. “Bem-aventurados os mansos” (Mt 5, 5). A lógica cristã está delineada no Evangelho: “Todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” (Mt 23, 12). Vale lembrar um antigo ritual da coroação do papa. Ao colocar a tiara, símbolo do poder pontifício, um dos cardeais pronunciava estas palavras: “Sancte Pater, sic transit gloria mundi!” (Santo Padre, a glória do mundo é transitória).

Etimologicamente, a palavra arrogância deriva do verbo latino “adrogare”, que significa exigir para si. No Império Romano, era utilizada para definir alguém que se considerava no direito de impor um reconhecimento que não lhe cabia. Arrogantes de diferentes tipos estão hoje em alta na vida pública e nas redes sociais. Trata-se de atribuir a si poderes ou privilégios, impondo uma suposta superioridade. É manifestação de narcisismo, deslumbramento decorrente de algum frágil predicado ou ausência deste. Segundo os estudiosos da mente humana, trata-se do sentimento de quem se acredita melhor e mais capaz – moral, religiosa, social, política ou intelectualmente – do que os seus semelhantes. Resultado disso é o desprezo em relação aos outros, vaidade e soberba ostensivas. É típico do prepotente acreditar-se dono absoluto da verdade, demonstrando supremacia sobre os demais.

O tribuno romano Marco Túlio Cícero afirmou peremptoriamente: “Quanto mais medíocre, mais arrogante. O sábio não impõe.” O Salvador sempre se mostrara despretensioso e propositivo. Quanto mais santidade e sabedoria, mais pureza e humildade, ou seja, consciência de suas limitações. Os soberbos vestem a túnica da empáfia para ocultar sua ilusão e, por vezes, a própria mediocridade. A arrogância embriaga e ilude, faz perder a noção e a lucidez da condição humana. É sempre oportuna a orientação do apóstolo Paulo: “Nada façais por contenda ou vanglória, mas com humildade. Cada um considere os outros como superiores a si mesmo.” (Fl 2, 3).

A gênese da arrogância e de seus equivalentes, não raro, está nos recalques e frustrações que se procuram esconder nos gestos e palavras intransigentes. O presunçoso ameaça, procura humilhar, agride e persegue. É um obcecado por destruição. Sente prazer mórbido em descontruir quem o desagrada. Em geral, guarda uma amargura e um azedume interiores, buscando atingir seu semelhante com o ódio ou desprezo. Geralmente, ignora a polidez, educação e urbanidade. As pessoas pedantes tendem a ser ácidas e manter relações tóxicas. A ausência da paz dissemina um clima de negatividade. São pessoas inseguras, dominadas pelo medo de ser descobertas em sua pobreza interior.

A arrogância e seus congêneres têm levado muitos a desvarios em pronunciamentos inconsequentes que, não obstante, ecoam fortemente. O nível de morbidez da sociedade é tão expressivo que narrativas e discursos equivocados, marcados de petulância e sofismas, têm mais receptividade e adesão do que as perspectivas construtivas. No entanto, somente estas são capazes de desencadear uma qualificada configuração sociopolítica, religiosa e emocional. A prepotência hospeda discursos negativos e deletérios, sem contribuir para a solução dos problemas que afligem a humanidade. A prepotência é a máscara dos fracos. As posturas de suposta autossuficiência e a ilusão de ocupar uma posição de superioridade são confrontadas pela implacável realidade: quem é o ser humano, habitante deste “pálido ponto azul”, que é o planeta terra, na imensidão do Universo? Assim aconselha a Sagrada Escritura: “A soberba acaba por trazer humilhação, enquanto a humildade leva-nos à glorificação!” (Pv 29, 23).

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