Credita-se parte significativa do desenvolvimento
cultural e intelectual do Seridó à influência dos flamengos, oriundos dos
Países Baixos (Holanda), que no passado incluíam Bélgica, Luxemburgo e parte da
França (século XVII). A região foi marcada também pela presença de jesuítas e padres
diocesanos, provindos da Freguesia do Assú (séc. XVIII-XIX). Os primeiros legaram
tradições e técnicas. Dentre elas, destacam-se os queijos. Segundo algumas
fontes, sua primeira fabricação ocorreu entre Acari e Currais Novos, em 1596,
antecedendo às queijarias mineiras. Os bordados seridoenses são uma herança
cultural flamenga, oriunda de Bruges, capital da Flandres
Ocidental. Os açudes e barragens seridoenses foram inspirados nos diques, construídos
para defender o sul Holanda da invasão do mar. No Seridó, o objetivo é armazenar
água. Não há como ignorar nomes franceses de tantos cidadãos seridoenses:
Descartes, Dinarte, Vergniaud, Arnaud, Lamartine, Vauban, Odilon, Morton, bem como Gastão e Bernardo aportuguesados. Ressalta-se o francesismo dos
bordados e rendas: tricot, crochet, macramé, richelieu, renaissance
(renascença), guipure e outros.
Há quem atribua tais galicismos aos almanaques. É ignorar
que a antiga Província de Bruges se estendia até Lille (França), tendo o
francês como língua original. Bruges ainda é marcadamente francófona, apesar do
neerlandês ser o idioma oficial da região. Muitos de seus habitantes vieram
para o Nordeste brasileiro, quando da ocupação holandesa. Monges beneditinos
fundaram naquela cidade um mosteiro, a fim de suscitar vocações religiosas para
evangelizar o Brasil. Trata-se da Abadia de Santo André, que preparava jovens
para a vida missionária. De lá, veio Dom Gérard Van Caloen, primeiro bispo da Prelazia
de Boa Vista (RR). Este motivou a tese doutoral do historiador Jacques
Jongmans, na Universidade de Louvain.
É
inegável a inspiração flamenga na cultura seridoense. Entretanto, o Seridó
potiguar conheceu outros agentes formadores de seu povo. Muito deve aos
sacerdotes jesuítas, evangelizadores e colonizadores do interior potiguar. Esta
presença na formação de nossa índole data dos séculos XVII-XVIII. Há que
lembrar a importância do Colégio dos Jesuítas, de João Pessoa. De lá partiram
para evangelizar o RN, fundando missões, aldeias e erigindo igrejas. Santo
André de Soveral (mártir de Cunhaú) era um deles. Câmara Cascudo delineia os
caminhos dos padres da Companhia de Jesus no RN: Arês (antiga São João Batista
de Guaraíras), Extremoz (outrora São Miguel de Guajiru), Angicos (cujo nome
primitivo era Curral dos Padres), Assú, Apodi e Jucurutu. Nessas localidades,
além da catequese, transmitiram conhecimentos linguísticos e científicos. Incutiram
nos assuenses o gosto por idiomas, poesia e literatura. Assú é berço da primeira
Escola de Latim do RN. “Todo discípulo bem formado será como o mestre” (Lc 6,
40).
Assú foi um celeiro de vocações sacerdotais, inspiradas
pela cultura latina que encontrava seu ápice na liturgia. Até pouco tempo,
Padre Canindé manteve ali uma escola de preparação ao sacerdócio. A vida cristã
sempre foi marcante naquela cidade potiguar. É o torrão natal da Beata Lindalva
Justo. Da Freguesia de São João Batista (compreendendo, à época, Campo Grande e
outras localidades) provêm vários presbíteros, destacando-se o Senador Guerra,
seus sobrinhos Francisco Justino e José Modesto Pereira de Brito, Manuel José
Fernandes, Francisco Adelino de Brito e Francisco Rafael Fernandes. Foram
pastores e docentes no Seridó. Padre Guerra trouxe ainda para Caicó seu sobrinho
Joaquim Apolinar de Brito (leigo), um dos maiores educadores caicoenses. Outros
renomados assuenses, formadores da erudição seridoense (especialmente Caicó, Jucurutu
e Florânia), foram Padres Amaro Théo Castor Brasil, Manoel Gonçalves Soares de
Amorim e Idalino Fernandes de Souza. A presença de tantos sacerdotes de alto nível intelectual é um marco na formação dos
seridoenses.
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