Celebra-se Nossa Senhora Menina, no dia 8 de setembro, memória
litúrgica da Natividade de Maria Santíssima. Nosso amigo Diógenes da Cunha Lima,
presidente da Academia Norte Rio-Grandense de Letras, há dias comentava sobre essa
carinhosa invocação mariana, assim como a do Menino Jesus. Sugeriu que eu
escrevesse sobre tal devoção. Portanto, eis-me aqui tentando apresentar alguns dados. “À vossa proteção recorro, Santa Mãe de
Deus.”
Apesar
de parcas informações sobre o tema, o culto é antigo no catolicismo. Além de
imagens de Maria, quando criança, junto de Sant’Ana, historiadores aludem a versos
dedicados à Menina, atribuídos a Tiago Menor e um texto também de São Jerônimo.
Pesquisadores mencionam a existência da imagem de Maria Bambina, no Mosteiro
das Irmãs Capuchinhas de Milão, datando de 1739. Em Montaigu (França) existe
uma imagem secular, na qual a Virgem é representada adolescente, sorrindo e com
as mãos unidas em prece. Um acontecimento
contribuiu sobremaneira para divulgar o culto. Na Festa dos Reis Magos de 1840,
Irmã Madalena, do Convento de São José da Graça, na Cidade do México, enquanto
rezava, diante do presépio, ao Menino Jesus, questionava-se: “Por que não venerar
também Maria Menina?” A religiosa sonhou com a Mãe Celestial, ainda criança,
prometendo conceder abundantes graças a quem a homenageasse pela sua infância.
O Papa Gregório XVI aprovou o culto, concedendo indulgências. Começaram a
surgir orações, novenas etc. no dia oito de cada mês, lembrando o aniversário da
Mãe de Jesus, em 8 de setembro.
A
devoção se disseminou no sul do Brasil, impulsionada também pela Igreja Católica
Apostólica Brasileira – ICAB, fundada em 1945 por Dom Carlos Duarte da Costa,
bispo de Maura (nome de sua diocese titular). Em São Paulo, visitou o Externato
Nossa Senhora Menina, onde se venera uma imagem da Virgem com tal orago. Tornou-se
devoto dela. Desligado de Roma, Dom Carlos consagrou a primeira catedral da
igreja cismática a Nossa Senhora Menina, sediada no Rio de Janeiro (RJ).
Antes dessa dissidência religiosa, a veneração já existia no
Nordeste, mormente em Sergipe. Segundo Dom José Tomás Gomes da Silva (natural
de Alexandria/RN), Padre João Maria cultivava tal devoção, a ponto de intitular
“Oito de Setembro” (data alusiva à Natividade de Maria) um jornal abolicionista
que fundara. Dom Nivaldo Monte, que fora bispo auxiliar de Aracaju, ouvira
falar que Dom José, primeiro bispo de Sergipe – grande admirador do “Anjo de
Natal” –
encontrou na diocese alguns templos dedicados à Mãe de Cristo com o citado
orago.
Em 1947, o frade capuchinho italiano Otávio Silvestri,
radicado em Pernambuco, foi convidado para pregar missões em Florânia (RN) por
Padre Ambrósio Silva. Teve um sonho que no cume de um monte, distante cerca de meia
légua da matriz, estava sepultada uma jovem. Segundo lenda local, ela teria
morrido de maus tratos pela madrasta. Conforme outras versões, falecera de fome
na seca de 1877. Em 2002, publiquei um opúsculo sobre os acontecimentos. Inicialmente,
considerando a lenda, Dom José de Medeiros Delgado, então bispo de Caicó, permitiu
que colocassem na capela do monte uma imagem de Nossa Senhora Menina, trazida de
Sergipe por Frei Otávio. Os fiéis começaram a dissociar a menina encontrada no
monte (considerada a “santa menina”) da Virgem Maria. Padre Alexandre Martins
de Carvalho (conhecido por Xanduzinho), membro da ICAB, foi “sagrado” bispo pela
sua Igreja e residia em Assú. Suas pregações e novenas a Nossa Senhora Menina ajudaram
a aumentar a confusão entre os fiéis dos lugarejos vizinhos. Dom Delgado determinou,
então, a retirada daquela imagem, mudando o orago do Monte de Florânia para Nossa
Senhora das Graças. No ato, o bispo caicoense escreveu: “Maria é o
mais fiel espelho da santidade de Deus. Faça deste monte sua casa. Aqui seja
ardentemente venerada.”
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