Padre João Medeiros Filho
Destacam-se, do ponto de vista teológico, pastoral e
metodológico os artigos de nosso Arcebispo Dom João Santos Cardoso sobre a
Magnífica Humanidade, publicados na Tribuna do Norte em 12, 19 e 26 de junho próximo
passado. Ensinamentos preciosos e oportunos. Apenas desejo pinçar alguns trechos
de Leão XIV, que considero relevantes. “O verdadeiro desenvolvimento humano não
pode ser medido apenas por eficiência técnica ou crescimento econômico.” A
humanidade deve sedimentar sua dignidade, seu compromisso moral e necessidade
de reconstruir relações fundadas na verdade, justiça e partilha. Em meio às
incertezas da era digital, o documento enfatiza: “Nenhuma automação poderá
substituir a experiência humana de amor, misericórdia e interação entre as
pessoas.” A Igreja e os povos são convidados a refletir sobre o tipo de
civilização que se constrói. A capacidade de amar, transmitir a verdade, viver
em comunhão com Deus (próprio do ser humano) é inegociável e não poderá ser absorvida
pela tecnologia.
Diz o relato bíblico: “Deus criou o ser humano à Sua imagem” (Gn 1, 27).
O Santo Padre adverte sobre “formas de apropriação da
inteligência artificial, acentuando cenários de exclusão.” Não raro, concentram
riquezas nas mãos de poucos, impondo sacrifícios a quem já padece de pobreza e exclusão.
Ademais, enfatiza que o avanço tecnológico migrou da esfera estatal para a
privada. Apresenta-se, muitas vezes, “transnacional, dotado de recursos e
capacidades de intervenção superiores aos de muitos governos.” Destarte, o poder
tecnológico assume uma identidade inédita, predominantemente privada,
talvez mais difícil de orientá-lo para o bem comum. Diante disso, indaga-se: a quem servem tais avanços e seus reais propósitos?
No afã de abraçar uma tecnologia aprimorada, o homem sujeita-se
a certos perigos, oriundos da irresponsabilidade ética. Tal postura poderá
afastá-lo de seus autênticos interesses e torná-lo totalmente desprovido da
pertença a uma comunidade. Tal situação oferece-lhe mais condições de considerar
as necessidades dos mais pobres e incautos, inclusive no que
tange a seu futuro.
Após
citar aspectos éticos, sociais, educacionais, culturais, políticos, dentre
outros, o Pontífice aponta para a vocação universal dos cristãos a fim de edificar
a “civilização do Amor”. Esta torna-se ainda mais necessária, “quando o ódio vai
se apoderando fortemente do coração humano e da mente daqueles que, em posições
de prestígio ou poder, validam iniciativas catastróficas.” Estas revelam insensibilidade
ao sofrimento alheio. A Encíclica suscita nas pessoas de boa vontade o
desejo de ir além. Não basta se deter na
resignação, é preciso contar com as forças do Bem e do Amor, mesmo enfrentando
novos tipos de ataques e golpes à dignidade humana.
Importa aos cristãos olhar para as transformações
tecnológicas com ética, responsabilidade social, discernimento espiritual e zelo
pela dignidade humana. O Papa convida os fiéis a voltar-se para a contemplação,
interioridade e presença real (não apenas virtual). Isso facilitará um ambiente
cultural propício à reflexão sobre sua essência. O texto papal insiste sobre a
urgência de estruturar “uma sociedade mais justa e fraterna, nascida de vínculos
vividos em família, no trabalho, na convivência, na educação e política.” A
partir dessa perspectiva, a Encíclica assinala que cada pessoa possui
responsabilidades concretas na elaboração e fortalecimento da “civilização do Amor”.
Além disso, a Magnífica Humanidade reitera que a tecnologia jamais poderá
substituir “aquilo que pertence à essência humana: compaixão, amizade,
sofrimento compartilhado, misericórdia e comunhão com Deus.” Atente-se à
recomendação do apóstolo Paulo aos coríntios: “Santo é o santuário de Deus, que
sois vós” (1Cor 3, 17).
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