Padre João Medeiros Filho
O
Brasil é considerado um país continental, rico geográfica e culturalmente. Apesar
do idioma único, há diversidade nos falares, expressões típicas e curiosa
toponímia (com traços indígenas). O mapa é um inventário de palavras, despertando
atenção, humor e poesia. Há cidades que lembram lendas, acontecimentos... Dentre
centenas de topônimos, vale destacar pela originalidade: Varre-Sai (norte
fluminense) e Passa e Fica (agreste potiguar). Contêm histórias, anedotas, folclore
e o modo brasileiro de lidar com a linguagem oral, cheia de graça e
criatividade. Situada na divisa com MG e ES,
Varre-Sai é também conhecida pela produção de café. Sua denominação
onomatopaica, surge de um fenômeno natural: os ventos fortes que varriam a
região, antes da chegada de colonos italianos. Reza uma lenda que
tropeiros, ao passarem pelo local, teriam dito que ali “o vento varria e saía
levando tudo.” Daí a expressão “Varre-Sai”, batizando o lugarejo. “O vento gira para o sul e dobra para o norte,
passando ao redor de tudo.” (Ecl 1,6).
A
cerca de cem quilômetros de Natal, Passa e Fica é outro exemplo de imaginação
popular aplicada à geografia. Fundada nos albores do século XX, a cidade
montanhosa nasceu como ponto de parada para tangedores e comerciantes que atravessam
o interior potiguar. Conta-se que no topo da serra havia uma pensão-bodega,
onde os viajantes costumavam descansar. Certa vez, um deles teria dito ao dono:
“Vou só passar.” O anfitrião respondeu: “Pois, passa e fica!” A expressão
pegou. Quando o povoado virou município, o nome estava consolidado. Passa e Fica
é síntese do acolhimento nordestino e humor de quem transforma uma conversa
casual em identidade coletiva. Entretanto, o nome é paradoxal: passar e ficar
são ações opostas. Mas, a linguagem popular é mestra em conciliar termos antagônicos. Em Passa e Fica, há um convite. Quem
fica, quer levar adiante a história. “Deus confiou ao homem a gestão das
criaturas.” (cf. Gn 1, 28).
Casos,
como os supracitados, não são isolados. O Brasil contém nomes de municípios que
poderiam figurar em um livro de história ou anedotário. Vejamos: Não Me Toque,
Espumoso e Arroio dos Ratos (RS), Espera Feliz, Três Corações, Ponto Chique e
Passa Tempo (MG), Fartura e Bofete (SP), Vai-Vem, Quijingue e Cacha-Pregos (BA),
Chã de Alegria, Surubim e Solidão (PE), Puxinanã, Baía da Traição e Casserengue
(PB), Coité do Noia, Porto Calvo e Boca da Mata (AL), Pau dos Ferros, [São
Miguel do] Gostoso, Pureza, Encanto e Venha Ver (RN), dentre tantos. Tais nomes,
longe de meras curiosidades, revelam a relação entre o homem, a língua e a terra.
Nasceram de situações prosaicas, como uma fazenda, anedota, lenda, um rio, uma
devoção religiosa... Entretanto, ao serem
fixados como topônimos, ganham uma carga simbólica, fazendo da linguagem popular
uma história oficial. “E o homem deu nome às coisas.” (Gn 2, 20).
O geógrafo Milton Santos dizia que o território é também
um “sistema de significados”. Varre-Sai e Passa e Fica são mais que palavras no
mapa. Tornam-se relatos condensados, pedaços da memória oral, transformados em
geografia e registro histórico. Há quem veja nesses termos apenas exotismo ou
folclore. No entanto, revelam sabedoria diante da vida. Espera Feliz, por exemplo,
parece um conselho. Não Me Toque, um aviso que, segundo alguns, teria origem numa
briga entre vizinhos. Passa e Fica e Varre-Sai lembram a vida interiorana,
testemunha de idas e vindas, ventos e estradas, gente que passa, deixando um traço e lugares varrendo a poeira do
tempo, mas preservando a memória.
Há um número razoável de nomes de origem popular, fruto
da criatividade, oralidade e cultura sertaneja, dando ao Brasil um tom de
crônica viva. Cada um deles é um pequeno conto. Varre-Sai fala do vento. Passa e
Fica, da hospitalidade. Fartura, da esperança. Espera Feliz, do otimismo. Não Me
Toque, da prudência etc. São expressões de uma imaginação coletiva, que
transforma o cotidiano em história e poesia. Chorozinho (CE) lembra o choro dos
índios, expulsos de suas terras. Trombudo (SC) vem de um rio sinuoso, como uma
tromba. Nosso mapa é um mosaico onde humor, natureza e imaginação popular se
misturam. “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de
suas mãos.” (Sl 19/18,1).
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