PADRE JOÃO MEDEIOS FILHO
A palavra Epifania deriva do grego, cujo sentido é
manifestação ou aparição. No Brasil, após a supressão do feriado nacional do
Dia de Reis em 1967, celebra-se a Epifania no primeiro domingo do ano a fim de
ressaltar a importância da festa. Os demais países permanecem comemorando-a no
dia 6 de janeiro. Jesus manifesta-se àqueles que não faziam parte do povo da
Antiga Aliança. Nasceu para mostrar que o Amor de Deus pelos homens não tem discriminação.
Ele é Pai de todos. “Deu-nos o espírito da adoção pelo qual chamamos Deus de
Abba, Pai” (Gl 4, 5). Atualmente, vive-se num mundo egoísta, sem fraternidade, em
contradição aos propósitos de Natal. Cada vez mais as pessoas se fecham,
revelando-se insensíveis e indiferentes. Cristo, apesar de sua grandeza, fez-se
pequeno e humilde para não amedrontar. Mesmo os desconhecidos são recebidos com
ternura e respeito. É uma das lições a ser tirada da viagem dos Magos, que
acorreram a Belém para visitar o Menino. A
partir da vinda de Jesus, “já não há judeu nem grego” (Gl 3, 28). Deus cuida de
seus filhos, eis um dos ensinamentos da Epifania do Senhor.
Sentir a presença de Cristo é
fruto de busca e caminhada. Pouco importam condição social, raça, língua ou
ideologia. Ele é Irmão Universal. Nasceu tanto para os pastores como para os
estrangeiros do Oriente, cuja religião divergia daquela de seu povo. Deus
respeita e acolhe a religiosidade de cada um. Impressiona-nos o relato de
Mateus a respeito da indagação dos Magos sobre o local do nascimento do
Salvador e a ignorância de Herodes e dos poderosos de seu tempo. “Onde está o
Rei dos Judeus, que acaba de nascer?” (Mt 2, 2). Por vezes, nossa alienação mística
é idêntica. Cristo está perto de nós e não O identificamos. Falta-nos o desejo
de busca e descoberta do divino. Os Magos viajaram por terras estranhas,
enfrentaram adversidades, inclusive climáticas. Entretanto, foram recompensados
com a alegria do encontro. Não apenas físico, mas espiritual, em comunhão com o
Menino-Deus.
Caminhar, procurar e rezar são
gestos dos Magos. “E prostrando-se O adoraram” (Mt 2, 11). Exemplos para o
mundo moderno: saber ir à procura do Transcendente. Jesus revela a face divina a
toda humanidade, representada pelos que vieram do Oriente. O Amor de Deus é
infinito. Ele age, além de nossas barreiras ideológicas
ou religiosas. Foram abolidos direitos e privilégios. A graça divina inunda o coração daqueles que aceitam o Salvador. É o que se
pode sentir no evento da Epifania.
Em todas as pregações e
ensinamentos Cristo mostra que é inconcebível a exclusão espiritual. É
incoerente uma comunidade cristã que discrimina pessoas e se fecha como gueto,
seita ou clube de privilegiados. Ela não poderá ser chamada cristã, pois Jesus
é abertura e misericórdia divina estendida para levar perdão e amor. As atitudes
de Cristo demonstram que Ele veio para todos. Não se curvou às estruturas do
seu tempo nem se deixou escravizar pelas regras das instituições e poderes. É o
Amor, que não se prende nem se esconde. É Vida, que não se aprisiona nem se
aniquila. É o Infinito, o Eterno. Impossível limitá-lo ou não o reconhecer.
A Epifania é festa das virtudes da
fé e humildade. O homem, mesmo dotado de inteligência, sabedoria e erudição (presentes
nos Magos do Oriente) deve dobrar os joelhos diante de uma Criança e reconhecer
nela a Divindade latente. É o legado dos Magos, movidos pela fé, na caminhada
que os leva aos pés do Salvador. Baltasar, Belchior e Gaspar encontraram
Cristo. Eis a felicidade maior do coração humano! Diz-nos a narração do
evangelho de Mateus: “E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante
deles, até parar sobre o lugar onde estava o Menino” (Mt 2, 9). Era o sinal
para encontrar Jesus na dimensão espiritual, que se traduz na proximidade e comunhão com o sagrado. O
profeta Isaías faz-nos um convite inadiável: “Levanta-te, ilumina-te, porque
chegou a tua Luz. E a glória do Senhor raiou sobre ti” (Is 60, 1).
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