sábado, 14 de agosto de 2021

A bolsa perdida



A bolsa perdida

Por Magnovaldo Santos.

Em dezembro de 1977 eu morava em São José dos Campos, SP, e tive que ir até São Paulo resolver um problema que requeria minha presença. E já que estava na cidade grande fui até o então Hipermercado Eldorado, um refinado estabelecimento comercial situado na Rua Pamplona, uma região de comércio de alto nível na capital paulista. O Hipermercado Eldorado não existe mais, tendo sido adquirido pelo Carrefour. O objetivo do meu desejo era um aparelho de som 3 em 1 (rádio, toca-discos e cassete) da CCE, uma joia eletrônica da época, que seria meu próprio presente de Natal daquele ano.

O antigo Hipermercado Eldorado

Surpreendentemente consegui estacionar na própria Rua Pamplona, perto do Eldorado, um golpe de sorte, já que desde então aquela rua era uma movimentada artéria da cidade.

Bolsa capanga e o aparelho de som 3 em 1 da CCE

Peguei minha bolsa capanga, um artigo em moda na época, e coloquei-a sobre o capô do carro enquanto buscava algo no assento traseiro. Acontece que, distraído, esqueci-me de pegar a bolsa; fechei o carro e fui ao Eldorado comprar o tão sonhado aparelho de som.

Escolhido o objeto cobiçado, engoli em seco quando me dei conta que a capanga não estava comigo. Nela estavam meus documentos pessoais, dinheiro, talão de cheques e cartão de crédito. Imediatamente me lembrei que a havia esquecido em cima do capô do carro.

Bateu um aperreio da moléstia e uma zoeira arretada invadiu os miolos.

Voltei correndo ao lugar onde tinha estacionado e, claro, nada vi em cima do carro. Vasculhei o carro por dentro para ver se lá estava, mas... nada!

Sentei-me, quase tendo um troço, quando vi um bilhete colado no para-brisa:

“Vi quando o senhor saiu do carro deixando sua bolsa em cima dele. Peguei-a, mas lhe perdi de vista no meio das pessoas. Sua capanga está guardada aqui perto, na Silvia Calçados, na esquina com a rua Haiti. Por favor, venha buscá-la”.

Nem acreditava no que estava lendo. Peguei o bilhete e fui correndo até a Silvia Calçados, onde fui atendido por uma simpática mocinha. Mostrei o bilhete e disse que eu era o dono da bolsa. Ela pegou a bolsa embaixo do balcão, tirou minha carteira de identidade e me perguntou qual era o meu nome, para conferir.

Respondi:

- “Magnovaldo”.

E aí fez a segunda pergunta:

- “Magnovaldo de que”?

Nisso uma senhora, que aparentava ser a própria Dona Silvia, a interrompeu:

- “Filha, dê logo a bolsa dele. Um cabra que acerta “Magnovaldo” na mosca não precisa acertar mais nada”.

Comprei meu aparelho 3 em 1 da CCE e uma bem surtida caixa de bombons finos para a moça. Sim, sei que ela merecia bem mais!


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